Patrick Nekel
Filho Do Diabo

III

Capítulo 1

Durante minha primeira semana neste mundo, fiquei internado numa UTI.

Um incidente em casa com meu irmão mais velho atingiu a moleira, provocando convulsões e interrompendo minha respiração. Karen culpou meu irmão — apenas uma criança. Não guardo lembranças daquilo, mas a aflição sempre foi tangível. Aquele episódio foi como um presságio do que minha existência se tornaria.

Precisei ser hospitalizado por "acidentes domésticos" muitas vezes. Tantas que, antes dos cinco anos, já conhecia a textura dos lençóis de hospital, o cheiro de antisséptico que impregna tudo, o barulho dos carrinhos de medicação no corredor. Detalhes que nenhuma criança deveria conhecer tão intimamente.

A viagem para a casa do meu tio aconteceu quando eu tinha por volta de três anos. A construção mal havia terminado. Em algum momento, meu braço quebrou.

Segundo meu pai, eu posso ter caído enquanto brincava. Não me lembro da queda. Lembro das palavras:

"Para de manha."

"Esse menino só quer atenção."

"Birra de novo."

O que eles chamavam de birra era um osso quebrado gritando por socorro. Meu choro era o único idioma que uma criança de três anos possuía para dizer que algo estava errado. Ninguém traduziu. Exausto de tanto chorar, adormeci.

Chegamos em casa à noite. Minha mãe me levou para o banho. A água morna tocou meu braço e soltei um grito que deve ter ecoado pela vizinhança.

Foi só então que ela notou. Meu braço estava roxo, inchado, visivelmente torto.

"Fratura em galho-verde. Vou precisar terminar de quebrar."

O médico olhou para meus pais. "Como isso aconteceu?"

A sala tinha aquele tom frio de azul-esverdeado que só hospitais conseguem. As luzes fluorescentes zumbiam sobre minha cabeça.

"A fratura está incompleta," explicou o doutor enquanto calçava as luvas. "Como um galho verde que entorta mas não quebra totalmente. Preciso completar a quebra e realinhar."

Minha mãe soltou um soluço. "Não tem outro jeito, doutor? Ele já sofreu tanto..."

O médico balançou a cabeça. Meu pai abraçou minha mãe pelos ombros — parecia desconfortável naquele papel, como se vestisse roupas de outra pessoa.

"Karen, você precisa se acalmar. O médico sabe o que está fazendo."

Um enfermeiro sorriu para mim. O sorriso não alcançou seus olhos. "Vai doer só um pouquinho, campeão."

Mentira. Mentiras de adultos. Eu já conhecia aquelas.

"Um, dois..."

Ele não chegou ao três.

Um movimento rápido, e senti meu osso ceder completamente. A dor foi tão absoluta que o mundo ficou branco. Meu grito ficou preso na garganta — por alguns segundos, silêncio.

Foi então que minha mãe desabou.

Caiu de joelhos, soluçando, as mãos cobrindo o rosto. "Meu filho, meu filho," repetia entre gemidos. As enfermeiras correram para ajudá-la. O médico continuou seu trabalho em meu braço.

Meu pai parecia dividido entre a esposa no chão e o filho na maca.

"Ela é muito sensível," explicou ao médico. "Ama demais o piazinho."

Anos mais tarde, entendi aquela cena.

A performance impecável de uma mãe devastada. Os olhares dos profissionais suavizando-se diante de tanto "amor maternal". A suspeita inicial do médico dissolvendo-se perante o teatro.

Como um bebê fica um dia inteiro com um osso quebrado e ninguém percebe?

Quem iria desconfiar de uma mãe tão amorosa?

Essa foi uma das coisas mais leves que ela fez. Mas me marcou como ferro em brasa.

Naquela noite, enquanto o gesso era aplicado, aprendi: suas lágrimas sempre seriam mais convincentes que as minhas. Sua dor sempre mais válida. Sua versão sempre mais acreditável.

Patrick com gesso no braço

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