Patrick Nekel
Filho Do Diabo

II

Prólogo

Eu tinha três anos quando meu braço quebrou.

Ninguém notou por um dia inteiro. Meu choro era "birra". Minha dor era "manha". Quando finalmente chegamos ao hospital, o médico precisou terminar de quebrar o osso para realinhá-lo.

Minha mãe desabou no chão da sala de procedimentos, soluçando. "Meu filho, meu bebê." As enfermeiras correram para ajudá-la. O médico suavizou o olhar. Meu pai explicou: "Ela é muito sensível. Ama demais o piazinho."

Anos depois, entendi: suas lágrimas sempre seriam mais convincentes que as minhas.

Minha mãe tinha apelidos especiais para mim. Guardava essas palavras como munição, evitando pronunciá-las na frente de outras pessoas. Mas quando perdia a paciência — quando o verniz de mãe devota rachava — vinham os trovões: demônio endiabrado, sacizento, filho do capeta, praga do inferno.

Filho do diabo.

Era uma catequista. Devota da Virgem Maria. Todos a descreviam como simpática, fácil de gostar. Como questionar uma mulher que todos tratam como santa?

Eu não questionava. Eu apenas concluía: o problema sou eu.

Este livro não é sobre minha mãe.

É sobre como Jesus salvou minha vida. Não nas orações mecânicas ou nas imagens de gesso — mas no momento mais escuro, quando eu já não acreditava que pudesse existir algo além daquele inferno doméstico.

Mudei alguns nomes. Não quero pena. Quero que saibam.

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