I
Epígrafe
Em uma terra remota, a Senhora Pálida sussurra ao Pequeno-Lobo.
Entre corredores de vidros estilhaçados, onde toda imagem condena:
"NASCESTE TORTO, CRIANÇA-ENIGMA, SEMENTE PODRE EM ÚTERO SANTO. POBRE COITADO, SERIA SEU DESTINO SER MUTILADO, DILACERADO? PEDACINHO POR PEDACINHO. FOGE."
Como escapar quando as paredes são feitas de rosários e promessas? Quando o algoz veste auréola emprestada e o tribunal são os próprios neurônios?
Pergunto aos ossos que guardaram pancadas: seria pecado vestir-me de sombras, tornar-me aquilo que sempre disseram? Abraçar o título como armadura?
Por que insistir em bondade quando provei do inferno antes dos dentes de leite? Por que não devolver ao mundo o veneno que me fizeram engolir?
Descobri tarde — mas não tarde demais — que até serpentes podem mudar de pele. Que o fogo que queima também refina. Que cicatrizes são mapas, não sentenças.
E mesmo filhos do diabo podem ser adotados pelo céu — descobri isso tarde, mas descobri a tempo.
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