Capítulo V
Fé Além das Fronteiras
Parte I — O Centurião de Cafarnaum
Parte I: O Centurião de Cafarnaum
Entrando Jesus em Cafarnaum, aproximou-se dele um centurião, pedindo-lhe ajuda: "Senhor, o meu servo está em casa, paralítico, em terrível sofrimento." Jesus lhe disse: "Eu irei curá-lo."
O servo de um centurião, a quem este muito estimava, estava doente, quase à morte. Tendo ouvido falar de Jesus, enviou-lhe alguns líderes religiosos dos judeus, pedindo-lhe que viesse curar o seu servo.
Jesus desceu do monte.
O Sermão tinha terminado. As palavras ficaram no ar. Sobre fundamentos, sobre construir, sobre a casa que fica de pé quando a tempestade vem.
Agora vinham as demonstrações.
A multidão seguia. Impressionados com o ensino, queriam ver mais. Jesus entrou em Cafarnaum — a cidade que se tornara sua base de operações.
Um centurião romano tinha um problema.
Centurião era comandante de cem soldados — representante do Império ocupante. Na visão de qualquer judeu zeloso, era inimigo, pagão, incircunciso, impuro.
E o servo dele estava morrendo.
O servo de um centurião, a quem este muito estimava, estava doente, quase à morte. — Lucas 7:2
Lucas usa uma palavra interessante: éntimos — "estimado", "precioso". Não era apenas um escravo. Era alguém que importava.
O centurião ouviu falar de Jesus.
Mas não foi pessoalmente. Enviou anciãos judeus como intermediários.
Tendo ouvido falar de Jesus, enviou-lhe alguns líderes religiosos dos judeus, pedindo-lhe que viesse curar o seu servo. Chegando-se a Jesus, suplicaram-lhe com empenho: "Este homem merece que lhe faças isso, porque ama a nossa nação e construiu a nossa sinagoga." — Lucas 7:3-5
Pensa na ironia: judeus advogando por um romano, dizendo que ele "merece".
Por quê? Porque o centurião havia construído a sinagoga deles. Amava a nação. Era um gentio que respeitava o Deus de Israel.
Jesus foi.
Estava já não longe da casa quando o centurião mandou alguns amigos dizer-lhe: "Senhor, não te incomodes, pois não mereço receber-te debaixo do meu teto. Por isso, nem me julguei digno de ir ao teu encontro." — Lucas 7:6-7
Espera um momento. Os anciãos judeus disseram "ele merece". Mas o centurião disse "não mereço".
Quem estava certo?
O centurião entendia algo que os judeus não entendiam. Não se tratava de mérito.
E então veio a declaração que parou Jesus:
"Dize somente uma palavra, e o meu servo será curado. Pois eu também sou homem sujeito à autoridade, com soldados sob o meu comando. Digo a um: 'Vá', e ele vai; e a outro: 'Venha', e ele vem. Digo a meu servo: 'Faça isto', e ele faz." — Lucas 7:7-8
O centurião era um homem de hierarquia. Vivia num sistema de comando. Quando dava uma ordem, era obedecido — não porque estava presente, mas porque tinha autoridade.
E reconheceu: Jesus tinha autoridade maior.
"Dize somente uma palavra." Não precisa vir. Não precisa tocar. A palavra basta.
Ao ouvir isso, Jesus ficou admirado com ele e, voltando-se para a multidão que o seguia, disse: "Digo-lhes que nem em Israel encontrei tamanha fé." — Lucas 7:9
Jesus ficou admirado.
Em todo o Evangelho, Jesus fica admirado só duas vezes. Aqui, com a fé de um gentio. E em Nazaré, com a descrença de Israel.
Pensa nesse contraste: o povo da aliança não crê. O pagão, crê.
Mateus registra o que Jesus disse em seguida:
"Digo-lhes que muitos virão do oriente e do ocidente, e se sentarão à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos céus. Mas os súditos do Reino serão lançados para fora, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes." — Mateus 8:11-12
Palavras pesadas.
Gentios do oriente e do ocidente — de toda parte — sentando à mesa com os patriarcas. E os "súditos do Reino" — Israel — lançados fora.
Não porque Deus rejeitou Israel. Mas porque Israel rejeitou a fé.
O que o centurião viu que Israel não viu?
Ele entendeu autoridade. Entendeu hierarquia e comando. Entendeu que quando Jesus falava, algo acontecia — não por magia, mas por posição. Jesus ocupava um lugar na ordem cósmica que obrigava realidades a obedecerem.
Os fariseus viam um carpinteiro galileu. O centurião via o Comandante.
Então Jesus disse ao centurião: "Vá! Como você creu, assim lhe será feito." E naquela mesma hora o seu servo foi curado. — Mateus 8:13
À distância.
Sem toque. Sem presença física. Apenas uma palavra — e quilômetros adiante, um corpo doente foi restaurado.
O centurião estava certo. A palavra bastava.
E, voltando para casa, os enviados encontraram o servo restabelecido. — Lucas 7:10
Quando os mensageiros chegaram, o servo já estava curado.
A fé do gentio foi honrada. A hierarquia que ele reconheceu funcionou exatamente como ele esperava.
Um gentio entendeu antes de Israel.
A fé não pertence a uma etnia. Pertence a quem reconhece a autoridade.
O centurião não tinha circuncisão. Não tinha Lei. Não tinha tradição. Tinha olhos para ver — e humildade para curvar.
"Não mereço."
E exatamente por isso, recebeu.
Conexões
- Isaías 56:6-7 — "Os estrangeiros que se unirem ao SENHOR... eu os trarei ao meu santo monte"
- Atos 10:1-48 — Cornélio, outro centurião, recebe o Espírito Santo
- Romanos 9:30-32 — Gentios alcançaram justiça pela fé; Israel tropeçou
- Efésios 2:11-13 — Gentios que eram "separados" foram "aproximados pelo sangue de Cristo"
- João 4:48 — "Se vocês não virem sinais e maravilhas, nunca crerão" — contraste com o centurião que creu sem ver