Capítulo I
Prólogos e Genealogias
Parte I — O Verbo e a Seta
" Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho. — Hebreus 1:1-2
Antes de haver tempo, havia Palavra.
Antes das estrelas acenderem. Antes do hidrogênio colapsar em hélio nos fornos gravitacionais que iluminariam o cosmos. Antes de haver um "antes" — havia alguém.
" No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus e era Deus. Ele estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito. Nele estava a vida, e esta era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram. — João 1:1-5
"No princípio" — as mesmas palavras que abrem Gênesis: "No princípio, Deus criou os céus e a terra" (Gênesis 1:1). Estamos sendo levados além de Abraão, além de Adão, além do primeiro nascer do sol. Estamos no ponto zero. No momento em que não havia momento.
E ali, naquele não-lugar antes de todos os lugares, já existia uma Presença. Uma Palavra. Um Verbo que não precisou ser pronunciado porque era a própria boca e o próprio som e o próprio ar onde o som se propaga.
Mas como contar a história de alguém assim?
Dois mil anos atrás, quatro homens tentaram. E cada um começou de um jeito.
Um médico grego, meticuloso como são os médicos, decidiu que essa história merecia o rigor de uma investigação:
" Muitos já se dedicaram a elaborar um relato dos fatos que aconteceram entre nós, conforme nos foram transmitidos por aqueles que, desde o início, foram testemunhas oculares e servos da palavra. Eu mesmo investiguei tudo cuidadosamente desde o começo e decidi escrever-te um relato ordenado, ó excelentíssimo Teófilo, para que tenhas a certeza das coisas que te foram ensinadas. — Lucas 1:1-4
Teófilo — "amigo de Deus" em grego. Talvez um patrono romano. Talvez você, lendo isso agora.
Outros já haviam escrito. Lucas pesquisou. Entrevistou testemunhas. Cruzou datas. Organizou cronologias. Ele queria certeza, não rumor. Fatos, não folclore.
Enquanto isso, outro homem — um coletor de impostos que abandonou sua mesa de câmbio para seguir um rabino itinerante — abriu seu relato com algo que parecia um documento legal: uma lista de nomes.
" Registro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. — Mateus 1:1
Duas credenciais. Filho de Davi: herdeiro do trono eterno — "eu firmarei o trono dele para sempre" (2 Samuel 7:13). Filho de Abraão: herdeiro da promessa que fundou uma nação — "por meio da sua descendência todos os povos da terra serão abençoados" (Gênesis 22:18).
" Abraão gerou Isaque; Isaque gerou Jacó; Jacó gerou Judá e seus irmãos; Judá gerou Perez e Zerá, cuja mãe foi Tamar; Perez gerou Esrom; Esrom gerou Arão... — Mateus 1:2-3
A lista continua por quarenta e duas gerações — e não é acidental. Mateus dividiu em três blocos de quatorze nomes cada: de Abraão a Davi, de Davi ao exílio, do exílio a Cristo.
Por que quatorze?
O hebraico é uma língua onde letras são números. Não como metáfora — literalmente. Cada letra do alfabeto tem um valor numérico fixo. Alef é 1. Bet é 2. Gimel é 3. E assim por diante. Isso significa que toda palavra hebraica é também uma equação. Todo nome é também um número.
O nome de Davi — דוד em hebraico, Δαυίδ em grego — se escreve com três letras: ד (dalet = 4), ו (vav = 6), ד (dalet = 4). Some: 4 + 6 + 4 = 14.
Mateus não escolheu quatorze por acaso. Ele embutiu o nome de Davi na própria arquitetura da genealogia. Três vezes quatorze. Davi, Davi, Davi. Como um tambor batendo. Como um coração pulsando. Como uma seta sendo disparada através de dois mil anos de história — patriarcas, reis, exílio, retorno — até cravar no peito de um bebê nascido em Belém.
A cidade de Davi — "Mas tu, Belém-Efrata, embora sejas pequena entre os clãs de Judá, de ti virá para mim aquele que será o governante sobre Israel" (Miqueias 5:2). O herdeiro de Davi. O trono de Davi restaurado.
Tudo isso, escondido numa lista de nomes que a maioria dos leitores pula.
E então a lista chega ao fim:
" Jacó gerou José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo. — Mateus 1:16
Leia de novo. Em quarenta e duas gerações, o padrão nunca muda: "fulano gerou siclano". Mas aqui, no último nome, a gramática tropeça. Não diz "José gerou Jesus". Diz "da qual nasceu". O verbo muda. O sujeito muda. A linguagem se contorce para acomodar algo que não cabe nos padrões normais de paternidade humana.
E aqui está a objeção que ecoa há dois mil anos: se José não gerou Jesus, então Jesus não é filho de Davi. A linhagem régia passa pelo pai. Sem pai biológico davídico, não há trono. É o argumento mais antigo contra a messianidade de Jesus — e Mateus sabia disso quando escreveu.
Mas Mateus também constrói a resposta no próprio texto: José assume publicamente a paternidade ao receber o menino e dar-lhe nome — "e lhe pôs o nome de Jesus" (Mateus 1:25). No mundo antigo, nomear não era gesto decorativo. Era reconhecimento. Assim, mesmo sem paternidade biológica, Jesus herda a identidade davídica no plano dinástico e público pela casa de José.
Lucas, por sua vez, registra uma genealogia diferente — cuja interpretação é debatida. Muitos a entendem como uma forma indireta de apontar para a linha de Maria; outros a leem como outra tradição genealógica ligada a José. Em qualquer caso, Lucas também ancora Jesus em Davi, por outro caminho.
Duas linhagens. Dois caminhos até Davi. Como se a promessa quisesse ter certeza de que não haveria escapatória.
A própria estrutura da frase guarda o mistério. E o mistério responde à objeção.
E aqui está o paradoxo maior: aquele para quem toda a seta aponta — o herdeiro de Davi, o filho de Abraão, o último nome da lista — é o mesmo que já existia antes do primeiro nome ser pronunciado. A genealogia conta de onde ele veio. Mas ele estava lá antes de haver genealogia. Antes de Abraão — "Eu lhes afirmo que antes de Abraão nascer, Eu Sou!" (João 8:58). Antes de Adão. Antes de haver tempo para medir.
Continua na Parte II: Dois Caminhos até Adão
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