Capítulo II
Nascimento e Infância
Parte I — Dois Anúncios
Quatrocentos anos de silêncio.
Desde Malaquias — o último profeta — até o nascimento de João, Deus não falou. Nenhuma visão. Nenhum anjo. Nenhuma voz do céu. Quatro séculos de espera. Impérios subiram e caíram. A Grécia conquistou o mundo e depois Roma conquistou a Grécia. Israel foi esmagado, libertado, esmagado de novo. E durante todo esse tempo — nada.
Então, no reinado de Herodes, um anjo apareceu.
No tempo de Herodes, rei da Judeia, havia um sacerdote chamado Zacarias, que pertencia ao grupo sacerdotal de Abias; Isabel, sua mulher, também era descendente de Arão. Ambos eram justos aos olhos de Deus, obedecendo de forma irrepreensível a todos os mandamentos e preceitos do Senhor. Mas eles não tinham filhos, porque Isabel era estéril; e ambos eram de idade avançada. — Lucas 1:5-7
Um casal sem filhos. Velhos. Justos — Lucas faz questão de dizer — mas ainda assim sem herdeiros. No mundo antigo, isso era vergonha. Julgamento. Prova de que algo estava errado. As pessoas olhavam e pensavam: o que eles fizeram para Deus os punir assim?
Mas Lucas diz: eram justos. Obedeciam de forma irrepreensível. Às vezes o silêncio de Deus não é punição — é preparação.
Certa vez, quando o grupo de Zacarias estava de serviço e ele desempenhava os deveres sacerdotais diante de Deus, ele foi escolhido por sorteio, conforme o costume do sacerdócio, para entrar no santuário do Senhor e oferecer incenso. — Lucas 1:8-9
O sorteio. Havia cerca de oito mil sacerdotes divididos em vinte e quatro turnos. Cada turno servia duas semanas por ano. Dentro de cada turno, sorteavam-se as tarefas. E a maior honra — entrar no Santo Lugar sozinho para queimar incenso — podia acontecer uma única vez na vida de um sacerdote. Alguns nunca eram escolhidos.
Zacarias foi escolhido.
Na hora de oferecer incenso, toda a assembleia do povo estava orando do lado de fora. Então um anjo do Senhor apareceu a Zacarias, à direita do altar do incenso. Quando Zacarias o viu, perturbou-se e foi dominado pelo medo. — Lucas 1:10-12
Quatrocentos anos sem anjos. E agora um aparece — bem ali, no coração do templo, à direita do altar onde o incenso subia como oração.
Mas o anjo lhe disse: "Não tenha medo, Zacarias; sua oração foi ouvida. Isabel, sua mulher, dará à luz um filho, e você lhe dará o nome de João. Ele será motivo de prazer e de alegria para você, e muitos se alegrarão por causa do nascimento dele, pois será grande aos olhos do Senhor. Ele nunca tomará vinho nem bebida fermentada, e será cheio do Espírito Santo desde antes do seu nascimento". — Lucas 1:13-15
O nome é dado antes do nascimento. Yochanan — "O Senhor é misericordioso". E a descrição: nunca tomará vinho, será cheio do Espírito desde o ventre. Isso é linguagem de nazireu — consagrado desde a concepção. Como Sansão. Como Samuel.
E então vem a missão:
Ele fará retornar muitos dentre o povo de Israel ao Senhor, ao seu Deus. E irá adiante do Senhor, com o espírito e o poder de Elias, para fazer voltar o coração dos pais a seus filhos e os desobedientes à sabedoria dos justos, para deixar um povo preparado para o Senhor". — Lucas 1:16-17
"Com o espírito e o poder de Elias." A última profecia de Malaquias — o último verso do último profeta antes do silêncio — dizia exatamente isso: "Vejam, eu enviarei a vocês o profeta Elias antes do grande e temível dia do Senhor" (Malaquias 4:5).
João não era Elias — e quando perguntaram, ele negou. Mas veio com o mesmo espírito, a mesma função: preparar o caminho. O primeiro ato de um drama que ainda não terminou.
O silêncio acabou. A promessa começava a se cumprir.
Mas Zacarias duvidou.
Zacarias perguntou ao anjo: "Como posso ter certeza disso? Sou velho, e minha mulher é de idade avançada". O anjo respondeu: "Sou Gabriel, que está sempre na presença de Deus. Fui enviado para lhe dar estas boas-novas. Agora você ficará mudo; não poderá falar até o dia em que isso acontecer, porque não acreditou nas minhas palavras, que se cumprirão no tempo oportuno". — Lucas 1:18-20
Gabriel. Um dos dois anjos nomeados nas Escrituras. O mesmo que apareceu a Daniel para explicar visões sobre o fim dos tempos (Daniel 8:16, 9:21). E Zacarias — um sacerdote, de pé no Santo Lugar, tendo acabado de ver uma aparição celestial — ainda pergunta: "Como posso ter certeza?"
O silêncio que se segue é irônico. Por quatrocentos anos, Israel esperou uma palavra de Deus. Agora Deus fala — e Zacarias é silenciado porque não acreditou.
Seis meses depois, o mesmo anjo apareceu de novo.
Mas não no templo. Não a um sacerdote. Desta vez foi a uma adolescente numa aldeia obscura da Galileia.
No sexto mês, Deus enviou o anjo Gabriel a Nazaré, cidade da Galileia, a uma virgem prometida em casamento a certo homem chamado José, descendente de Davi. O nome da virgem era Maria. O anjo, entrando onde ela estava, disse: "Alegre-se, agraciada! O Senhor está com você!" — Lucas 1:26-28
O contraste é brutal.
Zacarias: sacerdote. Homem. Velho. Em Jerusalém. No templo. Servindo no Santo Lugar. Recebe um anúncio e duvida.
Maria: sem título religioso. Mulher. Jovem — provavelmente entre 13 e 15 anos, a idade típica de noivado. Em Nazaré, uma vila tão insignificante que não aparece no Antigo Testamento. Recebe um anúncio e pergunta — mas não duvida.
Maria ficou perturbada com essas palavras, pensando no que poderia significar essa saudação. Mas o anjo lhe disse: "Não tenha medo, Maria; você foi agraciada por Deus! Você ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi, e ele reinará para sempre sobre o povo de Jacó; seu Reino jamais terá fim". — Lucas 1:29-33
O nome: Yeshua — "O Senhor salva". E a descrição: Filho do Altíssimo. Trono de Davi. Reino eterno.
Tudo o que Israel esperava. Todas as promessas. Todos os séculos de espera. Concentrados num anúncio a uma menina de Nazaré.
Maria perguntou:
"Como acontecerá isso", perguntou Maria ao anjo, "se sou virgem?" O anjo respondeu: "O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com a sua sombra. Assim, aquele que há de nascer será chamado Santo, Filho de Deus". — Lucas 1:34-35
A pergunta de Maria não é dúvida — é mecânica. Ela não pergunta "como posso ter certeza?" como Zacarias. Ela pergunta "como?" — porque biologicamente não faz sentido. Virgem não engravida.
E a resposta é: o Espírito Santo. O poder do Altíssimo. A mesma linguagem de Gênesis 1:2 — "o Espírito de Deus pairava sobre as águas". A criação original foi pelo Espírito. A nova criação também.
Isabel, sua parenta, igualmente terá um filho na velhice; aquela que diziam ser estéril já está em seu sexto mês de gravidez. Pois nada é impossível para Deus". — Lucas 1:36-37
Um sinal. Isabel — que todos achavam estéril — já está grávida de seis meses. Se Deus pode fazer isso, pode fazer qualquer coisa.
E Maria respondeu:
Respondeu Maria: "Sou serva do Senhor; que aconteça comigo conforme a tua palavra". Então o anjo a deixou. — Lucas 1:38
Nenhuma exigência de prova. Nenhuma hesitação. Apenas: "Sou serva do Senhor."
Onde o sacerdote duvidou, a adolescente creu.
Dois anúncios. Duas respostas. Um silenciado por incredulidade. Uma exaltada por fé.
E em ambos os casos, a história humana mudou de rumo.
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