Capítulo II
Nascimento e Infância
Parte II — A Visitação
Maria não esperou.
Naqueles dias, Maria preparou-se e foi depressa para uma cidade na região montanhosa da Judeia, onde entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. — Lucas 1:39-40
"Depressa." Lucas usa essa palavra com cuidado. Não era uma visita casual. Maria acabara de receber a notícia mais impossível da história humana — e sua primeira reação foi caminhar cerca de cem quilômetros, montanhas acima, para encontrar a única pessoa que poderia entender.
Isabel. Sua parenta. Também grávida de um milagre.
Mil anos antes, outra jornada atravessou essas mesmas montanhas. Davi trouxe a Arca da Aliança para Jerusalém — a presença de Deus em forma de objeto. "E Davi, vestido de um éfode de linho, ia dançando com todas as suas forças diante do Senhor" (2 Samuel 6:14). A Arca ficou três meses na casa de Obede-Edom antes de seguir viagem (2 Samuel 6:11).
Maria — carregando não um objeto, mas o próprio Deus em carne — ficaria três meses na casa de Isabel (Lucas 1:56). Lucas, o médico meticuloso, não menciona coincidências.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o bebê estremeceu em seu ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. — Lucas 1:41
O bebê estremeceu.
João — ainda no útero, com seis meses de gestação — reagiu à presença de Jesus. Maria mal havia cruzado a porta. Ainda não tinha contado nada. Mas o precursor já reconhecia aquele a quem prepararia o caminho.
O verbo grego é skirtao — saltar, pular de alegria. O mesmo verbo que a Septuaginta usa para descrever Davi dançando diante da Arca (2 Samuel 6:16). João, no ventre, fez o que Davi fez diante da presença de Deus.
Anos depois, João diria: "Eu nem mesmo o conhecia, mas aquele que me enviou para batizar com água me disse: 'Aquele sobre quem você vir o Espírito descer e permanecer, esse é o que batiza com o Espírito Santo'" (João 1:33). Mas ali, no ventre de Isabel, ele já sabia. O profeta reconheceu o Messias antes de ambos nascerem.
Isabel também soube.
Em alta voz exclamou: "Bendita é você entre as mulheres, e bendito é o fruto do seu ventre! Mas por que sou tão agraciada, ao ponto de me visitar a mãe do meu Senhor?" — Lucas 1:42-43
"A mãe do meu Senhor."
Isabel não disse "a mãe do meu primo". Não disse "a mãe de uma criança especial". Disse Senhor — Kyrios em grego, a mesma palavra que a Septuaginta usava para traduzir YHWH, o nome pessoal de Deus. Quando Davi disse "O Senhor disse ao meu Senhor: Senta-te à minha direita" (Salmo 110:1), usou essa mesma palavra. Jesus citaria esse verso para mostrar que o Messias era maior que Davi (Mateus 22:41-45).
Uma mulher idosa, grávida de um profeta, olha para uma adolescente grávida de poucas semanas e reconhece: você carrega o Senhor.
Logo que a sua saudação chegou aos meus ouvidos, o bebê estremeceu de alegria dentro de mim. Feliz é aquela que creu que se cumprirá o que o Senhor lhe disse! — Lucas 1:44-45
"Feliz é aquela que creu."
O contraste com Zacarias é implícito mas claro. Ele duvidou — foi silenciado. Maria creu — é chamada de makaria, bem-aventurada. A mesma palavra que Jesus usaria para abrir o Sermão do Monte: "Bem-aventurados os pobres em espírito" (Mateus 5:3).
E então Maria cantou.
Disse Maria: "A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, pois atentou para a humildade da sua serva. De agora em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada, pois o Poderoso fez grandes coisas em meu favor; santo é o seu nome." — Lucas 1:46-49
O Magnificat. O primeiro hino do Novo Testamento.
Mas não era novo. Maria estava citando — tecendo versos do Antigo Testamento numa nova canção. "A minha alma engrandece ao Senhor" ecoa o Salmo 34:3: "Engrandecei ao Senhor comigo, e todos, à uma, lhe exaltemos o nome."
E o paralelo mais forte vem de mil anos antes. Ana — também estéril, também milagrosamente grávida — cantou quando dedicou Samuel ao Senhor:
"O meu coração exulta no Senhor... Os arcos dos poderosos são quebrados, mas os fracos são revestidos de força. Os que eram fartos se empregam por pão, mas os que eram famintos não mais o são" (1 Samuel 2:1-5).
Maria conhecia esse canto. Toda menina judia conhecia. E agora ela cantava sua própria versão — porque a história estava se repetindo. O Deus de Ana era o mesmo Deus de Maria. O Deus que ouve os esquecidos.
Não foi composto por um sacerdote. Não veio de Jerusalém. Saiu da boca de uma adolescente da Galileia, grávida antes do casamento, numa casa nas montanhas da Judeia.
E o que ela canta não é sobre si mesma — é sobre o Deus que inverte ordens.
Sua misericórdia estende-se de geração em geração aos que o temem. Ele realizou poderosos feitos com seu braço; dispersou os que são soberbos no mais íntimo do coração. Derrubou governantes dos seus tronos, mas exaltou os humildes. Encheu de coisas boas os famintos, mas despediu de mãos vazias os ricos. — Lucas 1:50-53
Governantes derrubados. Humildes exaltados. Famintos satisfeitos. Ricos despedidos.
Isso não era poesia abstrata. Era teologia política. Isaías havia profetizado: "Todo vale será aterrado, todo monte e colina serão nivelados" (Isaías 40:4). O que parece alto será abaixado. O que parece baixo será elevado. Esse é o padrão do Reino.
Maria não estava descrevendo o que via — Roma ainda dominava, Herodes ainda reinava, Israel ainda sofria. Ela estava declarando o que Deus faz. Sempre fez. Sempre fará. "Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos" (Isaías 55:8).
Ajudou a seu servo Israel, lembrando-se de ser misericordioso para com Abraão e seus descendentes para sempre, como dissera aos nossos antepassados. — Lucas 1:54-55
Abraão. Dois mil anos antes, Deus prometeu: "Em ti serão benditas todas as famílias da terra" (Gênesis 12:3). E depois do quase-sacrifício de Isaque: "Na tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra" (Gênesis 22:18).
Paulo explicaria mais tarde: essa "descendência" era singular — não descendentes, mas descendente. "Ora, as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. Não diz: E aos descendentes, como se falando de muitos, mas como de um só: E ao teu descendente, que é Cristo" (Gálatas 3:16).
Agora, no ventre de Maria, essa promessa tomava forma humana.
Maria ficou com Isabel cerca de três meses e depois voltou para casa. — Lucas 1:56
Três meses. Como a Arca na casa de Obede-Edom. Maria chegou quando Isabel estava no sexto mês. Ficou até o nascimento de João — ou quase. Lucas não diz se ela estava presente no parto, mas a cronologia sugere que sim.
Duas mulheres. Dois milagres. Três meses juntas numa casa nas montanhas.
Uma velha que pensava que nunca teria filhos — como Sara, como Rebeca, como Raquel, como Ana. Uma jovem que não deveria ter como ter um filho — algo sem precedente. Ambas carregando promessas impossíveis que mudariam tudo.
Maria voltou para Nazaré.
Grávida. Solteira. Com uma história que ninguém acreditaria.
O anjo havia prometido: "Nada é impossível para Deus" (Lucas 1:37) — ecoando as palavras a Sara: "Haveria coisa alguma difícil ao Senhor?" (Gênesis 18:14). Mas o impossível às vezes vem embrulhado em escândalo.
A lei era clara: "Se, porém, for verdade que não se encontrou virgindade na moça, então... os homens da sua cidade a apedrejarão até que morra" (Deuteronômio 22:20-21).
Maria voltava para enfrentar isso.
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