Capítulo II
Nascimento e Infância
Parte III — O Nascimento de João
O silêncio de Zacarias durou nove meses.
Nove meses sem voz. Nove meses gestando algo que não cabia em palavras. Enquanto Isabel carregava o filho no ventre, Zacarias carregava o silêncio na garganta — punição e preparação ao mesmo tempo.
Completou-se para Isabel o tempo de dar à luz, e ela teve um filho. Seus vizinhos e parentes ouviram falar da grande misericórdia que o Senhor lhe havia demonstrado, e se alegraram com ela. — Lucas 1:57-58
"Grande misericórdia." Em hebraico, hesed — a palavra que significa lealdade de aliança, amor que não depende de merecimento. Isabel era estéril. Velha. Julgada pelos vizinhos durante décadas. E agora carregava um filho nos braços.
O Deus de Sara. O Deus de Rebeca. O Deus de Raquel. O Deus de Ana. O mesmo Deus — ainda abrindo ventres fechados, ainda escrevendo histórias nos corpos das esquecidas.
No oitavo dia foram circuncidar o menino, e queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias. Sua mãe, porém, disse: "Não! Ele será chamado João". — Lucas 1:59-60
O oitavo dia. Desde Abraão, a circuncisão acontecia no oitavo dia — "O que tem oito dias será circuncidado entre vós, todo macho nas vossas gerações" (Gênesis 17:12). Era o momento de entrar na aliança. O momento de receber o nome.
E o nome natural seria Zacarias. Era costume: o primogênito leva o nome do pai. Especialmente quando o pai é sacerdote. Especialmente quando o filho é milagre tardio.
Mas Isabel disse: "Não. João."
Disseram-lhe: "Você não tem nenhum parente com esse nome". Então fizeram sinais ao pai do menino, para saber como queria que a criança se chamasse. — Lucas 1:61-62
Fizeram sinais. Zacarias não estava apenas mudo — parecia também surdo, ou pelo menos tratado como tal. Nove meses isolado. Nove meses numa bolha de silêncio.
Ele pediu uma tabuinha e, para admiração de todos, escreveu: "O nome dele é João." — Lucas 1:63
Não "será João". É João. O nome já foi dado. O anjo já nomeou. Zacarias apenas confirma o que Gabriel disse nove meses antes no Santo Lugar.
Yochanan. "O Senhor é misericordioso."
O mesmo hesed que os vizinhos celebraram no nascimento. O nome era teologia em forma de som.
Imediatamente, a boca de Zacarias se abriu, sua língua se soltou e ele começou a falar, louvando a Deus. — Lucas 1:64
Imediatamente. Não gradualmente. Não depois de semanas de recuperação. No momento em que Zacarias escreveu o nome certo — o nome que o anjo ordenou — o silêncio quebrou.
O que saiu foi louvor.
Nove meses calado. Nove meses processando o impossível. E quando a voz voltou, veio carregada.
Todos os vizinhos ficaram cheios de temor, e por toda a região montanhosa da Judeia se falava sobre essas coisas. Todos os que as ouviam perguntavam admirados: "O que vai ser este menino?" Pois a mão do Senhor estava com ele. — Lucas 1:65-66
"A mão do Senhor estava com ele."
Essa frase aparece em toda a Escritura para marcar pessoas separadas para algo maior. Josué — "assim como fui com Moisés, serei com você" (Josué 1:5). Davi — "o Senhor estava com ele" (1 Samuel 18:14). Elias — "pela palavra do Senhor" (1 Reis 17:1).
João ainda era um bebê. Ainda não tinha feito nada. Mas já carregava uma marca visível — algo que fazia as pessoas perguntarem: o que vai ser este menino?
E então Zacarias profetizou.
Seu pai, Zacarias, foi cheio do Espírito Santo e profetizou. — Lucas 1:67
É a primeira profecia depois de quatrocentos anos de silêncio. O primeiro oráculo desde Malaquias. E vem da boca de um homem que passou nove meses sem voz.
O Benedictus. O segundo hino do Novo Testamento — logo depois do Magnificat de Maria.
"Bendito seja o Senhor, o Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo. Ele promoveu poderosa salvação para nós, na linhagem do seu servo Davi." — Lucas 1:68-69
"Visitou." O verbo grego é episkeptomai — olhar com atenção, vir para cuidar. É o que Deus fez com Israel no Egito: "Eu certamente os visitei e vi o que lhes estão fazendo no Egito" (Êxodo 3:16). Quatrocentos anos de escravidão — e então Deus visitou.
Quatrocentos anos de silêncio profético — e agora Deus visitava de novo.
"Como falou pela boca dos seus santos profetas, desde a antiguidade, salvando-nos dos nossos inimigos e da mão de todos os que nos odeiam, para mostrar sua misericórdia aos nossos antepassados e lembrar-se da sua santa aliança." — Lucas 1:70-72
Zacarias cita os profetas. Todos eles. Toda a linhagem de vozes que apontavam para este momento.
"Este é o juramento que fez ao nosso pai Abraão: de nos libertar da mão dos nossos inimigos, para o servirmos sem medo, em santidade e justiça, diante dele, todos os nossos dias." — Lucas 1:73-75
O juramento a Abraão. Dois mil anos antes, Deus prometeu — e agora cumpria. O arco da história é longo, mas a memória de Deus é perfeita.
E então Zacarias olha para o bebê nos braços de Isabel.
"E você, menino, será chamado profeta do Altíssimo, pois irá adiante do Senhor, para lhe preparar o caminho, para dar ao seu povo o conhecimento da salvação, mediante o perdão dos seus pecados." — Lucas 1:76-77
"Irá adiante do Senhor."
Não adiante do Messias. Não adiante do rei. Adiante do Senhor — Kyrios, o título divino. Zacarias está dizendo: meu filho vai preparar o caminho para Deus.
E isso significa que o menino no ventre de Maria — o menino que Isabel chamou de "meu Senhor" — é Deus.
Um sacerdote judeu, cheio do Espírito Santo, olhando para seu filho recém-nascido, profetiza que a próxima pessoa a aparecer será o próprio Senhor em carne.
"Graças à profunda misericórdia do nosso Deus, mediante a qual nos visitará o sol nascente das alturas, para brilhar sobre aqueles que estão vivendo nas trevas e na sombra da morte, e guiar nossos pés no caminho da paz." — Lucas 1:78-79
"Sol nascente das alturas." Em grego, anatole — a palavra usada para o nascer do sol, mas também para um broto que surge da terra. A Septuaginta usa essa palavra em Jeremias: "Nos seus dias Judá será salvo... este é o nome pelo qual será chamado: O Senhor, Justiça Nossa" (Jeremias 23:6). E em Zacarias: "Assim diz o Senhor dos Exércitos: Eis o homem cujo nome é Renovo; ele brotará do seu lugar" (Zacarias 6:12).
O broto. O sol nascente. A luz para quem vive nas trevas.
Isaías profetizou: "O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; sobre os que viviam na terra da sombra da morte raiou uma luz" (Isaías 9:2). Zacarias está dizendo: essa luz está chegando. Meu filho vai apontar para ela.
O menino crescia e se fortalecia em espírito; e viveu no deserto até aparecer publicamente a Israel. — Lucas 1:80
O deserto.
João não foi criado em Jerusalém. Não estudou com os escribas. Não seguiu a carreira sacerdotal do pai. Foi para o deserto — o mesmo deserto onde Israel vagou quarenta anos, onde Moisés viu a sarça ardente, onde Elias ouviu a voz mansa e suave.
O deserto é onde Deus prepara seus profetas.
Trinta anos depois, João sairia do deserto pregando: "Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo" (Mateus 3:2). Vestido de pelos de camelo. Comendo gafanhotos e mel silvestre. Gritando às margens do Jordão que alguém maior estava chegando.
O precursor. A voz no deserto. O Elias que viria.
Mas antes de tudo isso — antes do batismo, antes das multidões, antes de Herodes — havia um bebê no colo de uma mãe idosa, num vilarejo nas montanhas da Judeia.
E um pai que recuperou a voz só para profetizar.
Enquanto isso, em Nazaré, Maria esperava.
Grávida de um mistério que ninguém entenderia. Noiva de um homem que ainda não sabia o que pensar.
A história estava apenas começando.
Este projeto é gratuito e feito com dedicação.
Se te abençoou, considere apoiar.