Capítulo II
Nascimento e Infância
Parte IV — O Sonho de José
José não sabia.
Enquanto Maria passava três meses com Isabel nas montanhas da Judeia, José ficou em Nazaré. Trabalhando. Esperando. Planejando o casamento. Sem saber que sua noiva voltaria grávida.
Foi assim o nascimento de Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, mas, antes que se unissem, achou-se grávida pelo Espírito Santo. — Mateus 1:18
"Antes que se unissem." O noivado judaico era mais sério que o noivado moderno — era um compromisso legal que só podia ser desfeito por divórcio. Mas o casamento ainda não havia sido consumado. E agora Maria estava grávida.
Mateus diz: "pelo Espírito Santo". Mas José não sabia disso. Ele só via os fatos: sua noiva virgem agora carregava um filho que não era dele.
Por ser José, seu marido, um homem justo, e não querendo expô-la à desonra pública, decidiu repudiá-la secretamente. — Mateus 1:19
"Justo." A mesma palavra usada para descrever Zacarias e Isabel — dikaios, alguém que vive conforme a Lei. E a Lei era clara sobre o que fazer com uma noiva que aparecia grávida de outro.
Mas José não queria destruí-la.
A opção pública seria o julgamento formal. Testemunhas. Acusação. Potencialmente, apedrejamento — "Se, porém, for verdade que não se encontrou virgindade na moça... os homens da sua cidade a apedrejarão até que morra" (Deuteronômio 22:20-21). Era o caminho da justiça estrita.
José escolheu outro caminho. Repúdio secreto. Dois testemunhos. Sem exposição pública. Ela ficaria marcada como divorciada, não como adúltera. A vergonha seria menor.
Era o máximo de misericórdia que ele conseguia imaginar dentro da Lei.
Mas, depois de ter pensado nisso, apareceu-lhe um anjo do Senhor em sonho e disse: "José, filho de Davi, não tema receber Maria como sua esposa, porque o que nela foi gerado procede do Espírito Santo." — Mateus 1:20
"Filho de Davi."
O anjo não diz "José, carpinteiro". Não diz "José, filho de Jacó". Diz "filho de Davi" — o título régio. A linhagem real. O anjo está lembrando José de quem ele é: herdeiro do trono prometido.
E o que parecia escândalo era, na verdade, cumprimento.
"O que nela foi gerado procede do Espírito Santo." A mesma explicação que Gabriel deu a Maria. Agora José também sabia.
"Ela dará à luz um filho, e você deverá dar-lhe o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados." — Mateus 1:21
Yeshua. "O Senhor salva."
Mas note: não diz "salvará o povo dos romanos". Não diz "salvará o povo da opressão". Diz "dos seus pecados". O problema mais profundo não era César. Era algo dentro do próprio povo. Algo que nenhum exército poderia derrotar.
E o anjo dá a José uma tarefa específica: dar o nome. No mundo antigo, nomear era reconhecer. Ao dar o nome, José assumiria publicamente a paternidade legal. Jesus entraria na linhagem de Davi pela declaração de José.
Mateus então faz algo que repetirá ao longo de todo o seu Evangelho: cita o Antigo Testamento.
Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: "A virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe chamarão Emanuel", que significa "Deus conosco". — Mateus 1:22-23
Isaías 7:14. Setecentos anos antes.
O contexto original era uma crise política. O rei Acaz enfrentava uma aliança inimiga. Isaías ofereceu um sinal — qualquer sinal que Acaz quisesse pedir. O rei recusou, fingindo piedade. Então Isaías disse: Deus vai dar um sinal de qualquer jeito. Uma virgem conceberá.
A palavra hebraica é almah — uma jovem mulher em idade de casamento. A Septuaginta traduziu como parthenos — virgem. Alguns dizem que Isaías se referia apenas a uma jovem comum, e que o cumprimento foi no próprio tempo de Acaz.
Mas Mateus, escrevendo sob inspiração, vê mais longe. Ele vê o padrão que percorre toda a Escritura: promessas com cumprimentos múltiplos. Um cumprimento próximo, parcial. E um cumprimento final, pleno.
O cumprimento pleno era este: uma virgem literal. Um filho que não era apenas sinal de vitória temporária, mas Emanuel — Deus conosco — em carne.
Quando José acordou, fez o que o anjo do Senhor lhe tinha ordenado e recebeu Maria como sua esposa. — Mateus 1:24
Nenhuma hesitação registrada. Nenhum debate interno. Nenhuma exigência de provas adicionais.
José acordou e obedeceu.
Zacarias viu o anjo de pé no Santo Lugar e duvidou. José viu o anjo num sonho e obedeceu. O sacerdote pediu garantias. O carpinteiro agiu.
Mas não teve relações com ela enquanto ela não deu à luz um filho. E ele lhe pôs o nome de Jesus. — Mateus 1:25
"Não teve relações com ela enquanto..." O grego é claro: heos hou — até que. A implicação é que depois do nascimento, o casamento seguiu seu curso normal. Mateus não está dizendo que Maria permaneceu virgem para sempre. Está dizendo que José a respeitou durante a gravidez, e que o filho que nasceu não era biologicamente seu.
E quando o menino nasceu, José fez o que o anjo ordenou: deu-lhe o nome.
Jesus. Yeshua. O Senhor salva.
Um carpinteiro de Nazaré, acordando de um sonho, decidiu acreditar no impossível. E ao dar o nome, inseriu o Filho de Deus na linhagem de Davi.
Dois homens. Duas respostas a anjos.
Zacarias — sacerdote, no templo, diante de Gabriel em pessoa — duvidou e foi silenciado.
José — carpinteiro, em casa, vendo Gabriel num sonho — obedeceu e se tornou pai legal do Messias.
Às vezes a fé aparece onde menos se espera.
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