Capítulo II
Nascimento e Infância
Parte V — O Nascimento
César Augusto não sabia o que estava fazendo.
Naqueles dias, César Augusto publicou um decreto ordenando o recenseamento de todo o mundo romano. Este foi o primeiro recenseamento feito quando Quirino era governador da Síria. — Lucas 2:1-2
Augusto queria números. Quantas pessoas. Quanto imposto. Quanto poder. Roma precisava saber o tamanho do seu domínio.
O decreto saiu de Roma. Atravessou o Mediterrâneo. Desceu pela Síria. Chegou à Palestina. E forçou um carpinteiro de Nazaré a viajar cento e cinquenta quilômetros com sua esposa grávida.
E todos iam para a sua cidade natal, a fim de alistar-se. Assim, José também foi da cidade de Nazaré da Galileia para a Judeia, para Belém, cidade de Davi, porque pertencia à casa e à linhagem de Davi. — Lucas 2:3-4
Belém. A cidade de Davi.
Setecentos anos antes, Miqueias profetizou: "Mas tu, Belém-Efrata, embora sejas pequena entre os clãs de Judá, de ti virá para mim aquele que será o governante sobre Israel. Suas origens estão no passado distante, em tempos antigos" (Miqueias 5:2).
O Messias nasceria em Belém. Todo judeu sabia. Quando os magos perguntaram a Herodes onde o Cristo nasceria, os escribas responderam imediatamente: Belém (Mateus 2:5-6).
Mas Maria morava em Nazaré. A cem quilômetros de distância. Como o Messias nasceria em Belém se sua mãe vivia na Galileia?
Augusto resolveu o problema sem saber que havia um problema.
O imperador mais poderoso do mundo — aquele que se autodenominava divi filius, filho do divino — assinou um decreto burocrático. E esse decreto moveu as peças do tabuleiro exatamente para onde a profecia exigia.
"O coração do rei é como um rio controlado pelo Senhor; ele o dirige para onde lhe agrada" (Provérbios 21:1).
Ele foi a fim de alistar-se, com Maria, que lhe estava prometida em casamento e esperava um filho. — Lucas 2:5
A viagem deve ter levado pelo menos quatro dias. Provavelmente mais, considerando o estado de Maria. Cento e cinquenta quilômetros a pé ou no lombo de um jumento. Subindo e descendo colinas. Dormindo onde fosse possível.
E quando chegaram...
Enquanto estavam lá, chegou o tempo de nascer o bebê, e ela deu à luz o seu primogênito. Envolveu-o em panos e o colocou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. — Lucas 2:6-7
"Não havia lugar."
A palavra grega para "hospedaria" é katalyma — o mesmo termo que Lucas usa mais tarde para o cenáculo onde Jesus celebraria a última ceia (Lucas 22:11). Não era uma estalagem comercial. Era provavelmente o cômodo de hóspedes de uma casa de parentes.
Belém era a cidade ancestral de José. Ele tinha família ali. Mas a casa estava cheia. O censo trouxe todos os descendentes de Davi de volta. Não havia espaço no quarto de hóspedes.
Então Maria deu à luz no único lugar disponível: onde os animais ficavam. Talvez um estábulo anexo. Talvez uma gruta — as casas de Belém frequentemente tinham grutas nos fundos para abrigar o gado.
E o primeiro berço do Rei dos reis foi uma manjedoura. Um cocho de alimentação para animais.
"Envolveu-o em panos."
Essa era a prática normal. Faixas de tecido enroladas ao redor do recém-nascido para manter os membros retos e dar sensação de segurança. Ezequiel usa essa imagem para descrever Israel como um bebê abandonado: "No dia em que você nasceu... você não foi enrolada em faixas" (Ezequiel 16:4). Não ser enrolado em panos era sinal de abandono.
Jesus foi enrolado. Cuidado. Amado. Mas colocado numa manjedoura.
O contraste é brutal.
Augusto nasceu em Roma, em uma família senatorial, cercado de escravos e luxo. Herodes nasceu em um palácio, filho de um administrador idumeu que subiu ao poder pelo jogo político. Ambos se consideravam reis.
Jesus nasceu em um depósito de animais, numa cidade pequena, de uma mãe adolescente, assistido apenas por um carpinteiro que não era seu pai biológico.
"Pois vocês conhecem a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vocês, para que, por meio de sua pobreza, vocês se tornassem ricos" (2 Coríntios 8:9).
Lucas não dramatiza. Não descreve o parto. Não menciona dor. Não fala de anjos ao redor do estábulo. Apenas: "deu à luz", "envolveu-o em panos", "colocou numa manjedoura".
Três verbos. Fim da cena.
O momento mais importante da história humana — Deus entrando na criação como criatura — descrito em uma frase.
Aquele que falou e as galáxias existiram agora precisava aprender a falar. Aquele que sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder agora precisava ser sustentado nos braços de uma adolescente. Aquele que era antes de todas as coisas agora tinha horas de vida.
"Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós" (João 1:14).
Carne. Não aparência de carne. Não simulação. Carne real. Chorando. Mamando. Precisando ser trocado. Dependente.
O infinito se fez finito. O eterno entrou no tempo. E ninguém em Belém percebeu.
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