Capítulo II
Nascimento e Infância
Parte VI — Os Pastores
Ninguém em Belém percebeu. Mas alguém nos campos viu.
Havia pastores que estavam nos campos próximos e durante a noite guardavam os seus rebanhos. E aconteceu que um anjo do Senhor apareceu-lhes, e a glória do Senhor resplandeceu ao redor deles; e ficaram aterrorizados. — Lucas 2:8-9
Pastores. Não sacerdotes. Não escribas. Não anciãos. Pastores.
No primeiro século, pastores estavam na base da pirâmide social. Seu trabalho os mantinha longe das sinagogas. Seu testemunho não era aceito em tribunais — eram considerados mentirosos por profissão, já que viviam vendendo ovelhas. A tradição rabínica os listava entre as ocupações desprezíveis.
E foram eles que receberam o primeiro anúncio.
"A glória do Senhor resplandeceu ao redor deles." A última vez que isso aconteceu foi quando a glória encheu o tabernáculo no deserto (Êxodo 40:34) e depois o templo de Salomão (1 Reis 8:11). A presença visível de Deus. O kavod — o peso da glória.
Agora brilhava num campo escuro, cercando homens que cheiravam a ovelha.
Mas o anjo lhes disse: "Não tenham medo. Estou trazendo boas-novas de grande alegria, que são para todo o povo: Hoje, na cidade de Davi, nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor." — Lucas 2:10-11
Três títulos. Cada um carregando séculos de expectativa.
Salvador — Soter em grego. O libertador. Israel esperava alguém que os salvasse dos inimigos. Mas o anjo não especifica de quê. A salvação seria maior do que imaginavam.
Cristo — Christos, tradução do hebraico Mashiach. O Ungido. O Rei prometido. Aquele que Davi prefigurou. Aquele que os profetas anunciaram. Aquele que Israel esperava há mil anos.
Senhor — Kyrios. O título que a Septuaginta usava para traduzir YHWH, o nome pessoal de Deus. O anjo está dizendo: o bebê que nasceu em Belém é o próprio Deus.
Salvador. Messias. YHWH. Em um recém-nascido. Em uma manjedoura.
"Isto servirá de sinal para vocês: encontrarão o bebê envolto em panos e deitado numa manjedoura." — Lucas 2:12
O sinal é estranho. Não é um prodígio. Não é fogo do céu. Não é um exército angelical marchando. É um bebê enrolado em panos — como qualquer bebê — deitado num cocho de animais.
O sinal do Messias é a humildade.
De repente, apareceu com o anjo uma grande multidão do exército celestial, louvando a Deus e dizendo: "Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens aos quais ele concede o seu favor." — Lucas 2:13-14
"Exército celestial." O grego é stratia — a palavra para exército militar. Não era um coral. Era uma legião. O céu enviou suas tropas — não para conquistar, mas para cantar.
Gloria in excelsis Deo. O terceiro hino do Novo Testamento.
Primeiro Maria cantou o Magnificat. Depois Zacarias cantou o Benedictus. Agora os anjos cantam o Gloria. Cada hino mais alto que o anterior. Uma adolescente. Um sacerdote. E agora o próprio exército do céu.
"Paz na terra aos homens aos quais ele concede o seu favor."
Não paz para todos indiscriminadamente. Paz para aqueles sobre quem repousa a eudokia de Deus — sua boa vontade, seu favor, sua escolha. A paz não vem por mérito humano. Vem por graça divina.
Quando os anjos os deixaram e foram para o céu, os pastores disseram uns aos outros: "Vamos a Belém ver isso que aconteceu, e que o Senhor nos deu a conhecer." — Lucas 2:15
Os anjos foram embora. A glória se apagou. O campo voltou a ser escuro e silencioso.
E os pastores tiveram que decidir: acreditar ou não?
Poderiam ter racionalizado. Poderiam ter dito: foi imaginação, foi cansaço, foi alucinação coletiva. Poderiam ter voltado para as ovelhas e fingido que nada aconteceu.
Mas foram.
Então correram para lá e encontraram Maria e José, e o bebê deitado na manjedoura. — Lucas 2:16
"Correram." Não caminharam. Correram. A mesma urgência de Maria quando foi visitar Isabel — "depressa" (Lucas 1:39). Quando Deus fala, a resposta correta não é hesitação.
E encontraram exatamente o que o anjo disse: um bebê em panos, numa manjedoura. O sinal se confirmou.
Quando o viram, contaram o que lhes fora dito a respeito daquele menino, e todos os que ouviram ficaram admirados com o que os pastores lhes diziam. — Lucas 2:17-18
Os pastores — cujo testemunho não valia nada em tribunais — se tornaram as primeiras testemunhas do Messias. Os desprezíveis anunciaram o nascimento do Rei.
Maria, porém, guardava todas estas coisas e as ponderava em seu coração. — Lucas 2:19
"Guardava" — syntereo, preservar cuidadosamente. "Ponderava" — symballo, juntar, comparar, conectar.
Maria não falou. Não explicou. Não tentou convencer ninguém. Ela guardou. Juntou as peças. O anúncio de Gabriel. A visita a Isabel. O sonho de José. E agora pastores aparecendo no meio da noite dizendo que anjos cantaram sobre seu filho.
Peça por peça, o mosaico se formava.
Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes tinha sido anunciado. — Lucas 2:20
Voltaram para as ovelhas. Voltaram para a mesma vida de antes. Mas não eram os mesmos.
Tinham visto a glória. Tinham ouvido o exército do céu. Tinham encontrado o Messias numa manjedoura. E agora voltavam glorificando a Deus.
Os primeiros adoradores do Cristo não foram reis. Não foram sacerdotes. Não foram sábios.
Foram pastores. Homens sujos. Homens desprezados. Homens cujo testemunho não valia nada.
E Deus escolheu revelar a eles primeiro.
"Não foram muitos os sábios segundo a carne que foram chamados, nem muitos os poderosos, nem muitos os de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e Deus escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes" (1 Coríntios 1:26-27).
O padrão do Reino estava estabelecido desde a primeira noite.
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