Patrick Nekel
Harmonia Dos Evangelhos

Capítulo II

Nascimento e Infância

Parte VII — A Circuncisão e Apresentação

Oito dias depois, o sangue correu.

Ao completar oito dias, quando ele deveria ser circuncidado, foi-lhe dado o nome de Jesus, o nome que o anjo lhe tinha dado antes de ele ser concebido. — Lucas 2:21

A mesma cena que aconteceu com João. O oitavo dia. A circuncisão. O nome.

Mas há uma diferença. Com João, os parentes queriam dar outro nome e ficaram surpresos quando Isabel insistiu em "João". Com Jesus, não há resistência. José e Maria já sabiam o nome. O anjo já havia dito — a Gabriel para Maria, ao anjo do sonho para José.

Yeshua. O Senhor salva.

E agora o nome era oficial. Marcado na carne. Selado em sangue.

Terminado o tempo da purificação deles, de acordo com a Lei de Moisés, José e Maria levaram-no a Jerusalém para apresentá-lo ao Senhor, como está escrito na Lei do Senhor: "Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor", e para oferecer em sacrifício um par de rolas ou dois pombinhos, de acordo com o que diz a Lei do Senhor. — Lucas 2:22-24

Dois rituais distintos. Lucas os combina porque aconteceram juntos.

O primeiro: a purificação da mãe. Levítico 12 determinava que após o nascimento de um filho homem, a mulher ficava impura por quarenta dias. Depois, devia oferecer um sacrifício — um cordeiro de um ano como holocausto e um pombinho como oferta pelo pecado. Mas havia uma exceção: "Se não tiver recursos para oferecer um cordeiro, trará duas rolas ou dois pombinhos" (Levítico 12:8).

Maria trouxe pombinhos. A família era pobre.

O segundo: a consagração do primogênito. Desde o Egito, todo primogênito pertencia a Deus: "Consagrem-me todo primogênito. O primeiro a nascer de toda mulher israelita e de todo animal pertence a mim" (Êxodo 13:2). Na prática, os primogênitos eram "resgatados" — um preço era pago para liberá-los do serviço ao templo.

O irônico é que este primogênito específico não precisava ser apresentado ao Senhor. Ele era o Senhor. O templo era a casa do seu Pai. Mas ele veio como servo, não como rei. Cumpriu a Lei que ele mesmo havia dado.

Havia em Jerusalém um homem chamado Simeão. Ele era justo e piedoso, e esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele. Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que ele não morreria antes de ver o Cristo do Senhor. — Lucas 2:25-26

"A consolação de Israel."

O termo vem de Isaías: "Consolem, consolem o meu povo, diz o seu Deus" (Isaías 40:1). Era o nome dado à esperança messiânica — o momento em que Deus finalmente consolaria Israel de todos os seus sofrimentos.

Simeão esperava. E o Espírito Santo havia prometido: você vai ver antes de morrer.

Imagine. Anos. Talvez décadas. Esperando. Cada manhã acordando e pensando: será hoje? Cada criança entrando no templo para ser apresentada — será este?

E então, naquele dia...

Movido pelo Espírito, ele foi ao templo. Quando os pais trouxeram o menino Jesus para cumprirem o costume exigido pela Lei, Simeão tomou-o nos braços e louvou a Deus, dizendo... — Lucas 2:27-28

Simeão olhou para um bebê de quarenta dias nos braços de uma família pobre — oferecendo pombinhos, não cordeiros — e soube.

Este é.

"Soberano Senhor, como prometeste, agora podes despedir em paz o teu servo. Pois os meus olhos já viram a tua salvação, que preparaste à vista de todos os povos: luz para revelação aos gentios e para a glória de Israel, teu povo." — Lucas 2:29-32

O Nunc Dimittis. O quarto hino do Novo Testamento.

"Agora podes despedir em paz." A espera acabou. A promessa foi cumprida. Simeão pode morrer em paz porque viu o que precisava ver.

E note o que ele vê: não apenas o Messias de Israel, mas "luz para revelação aos gentios". Isso era radical. Muitos judeus esperavam um Messias que destruiria os gentios, não que os iluminaria. Mas Simeão, cheio do Espírito, vê além: este menino é para todos os povos.

Isaías já havia dito: "É pouco seres meu servo para restaurar as tribos de Jacó... também farei de ti uma luz para os gentios, para que sejas a minha salvação até os confins da terra" (Isaías 49:6).

O pai e a mãe do menino admiravam-se do que era dito a respeito dele. — Lucas 2:33

Note: Lucas diz "o pai e a mãe". José é chamado de pai. Legalmente, socialmente, funcionalmente — ele era. O mesmo Lucas que narrou a concepção virginal não tem problema em chamar José de pai.

E eles se admiravam. Mesmo depois do anjo, da visita a Isabel, do sonho de José, dos pastores — ainda se admiravam. O mistério não diminuía. Cada revelação abria mais profundidade.

Então Simeão os abençoou e disse à mãe dele, Maria: "Este menino está destinado a causar a queda e o soerguimento de muitos em Israel, e a ser um sinal que será contestado, para que se revelem os pensamentos de muitos corações. E uma espada traspassará a sua própria alma." — Lucas 2:34-35

A bênção se torna profecia. E a profecia é sombria.

Queda e soerguimento. O mesmo homem causará ambos. Alguns tropeçarão nele e cairão. Outros serão levantados por ele. Ninguém ficará indiferente.

"Um sinal que será contestado." Jesus não seria aceito por todos. Seria rejeitado. Debatido. Odiado. Crucificado.

E então a palavra para Maria: "Uma espada traspassará a sua própria alma."

Maria, que guardava tudo no coração, agora ouve que seu coração será atravessado. Trinta e três anos depois, ela estaria aos pés de uma cruz, vendo seu filho morrer. A espada já estava profetizada.

Havia também uma profetisa chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era muito idosa; tinha vivido com seu marido sete anos, e então permanecera viúva até a idade de oitenta e quatro anos. Nunca deixava o templo: adorava a Deus jejuando e orando noite e dia. — Lucas 2:36-37

Duas testemunhas. A Lei exigia duas testemunhas para validar um testemunho (Deuteronômio 19:15). Simeão, um homem. Ana, uma mulher. Ambos idosos. Ambos esperando a vida inteira.

Ana era da tribo de Aser — uma das dez tribos "perdidas" do norte, dispersas pela Assíria séculos antes. Ela representava o Israel esquecido, as ovelhas perdidas que ainda esperavam.

Chegando ali naquele exato momento, ela deu graças a Deus e falou a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém. — Lucas 2:38

"Naquele exato momento." Não coincidência. Providência. Ana chegou na hora certa para ver o que precisava ver.

E imediatamente começou a falar. Simeão profetizou para a família. Ana evangelizou para todos que esperavam a redenção.

Dois anciãos. Um homem e uma mulher. Um profetizou. Uma proclamou. E ambos reconheceram num bebê de quarenta dias o cumprimento de séculos de espera.

Depois de terem feito tudo o que era exigido pela Lei do Senhor, José e Maria voltaram à Galileia, para Nazaré, sua própria cidade. — Lucas 2:39

Lucas resume. Parece simples: foram ao templo, voltaram para Nazaré.

Mas Mateus conta o que aconteceu no meio. Antes de voltarem para Nazaré, algo mais aconteceu. Visitantes do oriente. Um rei paranóico. Uma fuga desesperada.

Lucas não menciona. Mateus narra.

Duas perspectivas. Uma história.

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