Patrick Nekel
Harmonia Dos Evangelhos

Capítulo II

Nascimento e Infância

Parte IX — A Fuga e o Massacre

A ordem veio de noite.

Depois que partiram, um anjo do Senhor apareceu a José em sonho e disse: "Levante-se, tome o menino e sua mãe, e fuja para o Egito. Fique lá até que eu diga, pois Herodes vai procurar o menino para matá-lo." — Mateus 2:13

Terceiro sonho de José. Cada vez mais urgente.

O primeiro: não tema receber Maria. O segundo: os magos, avisados para não voltar. O terceiro: fuja. Agora.

"Levante-se" — imperativo. "Tome" — imperativo. "Fuja" — imperativo. Três ordens. Sem explicação. Sem tempo para planejar.

Assim, ele se levantou, tomou de noite o menino e sua mãe, e partiu para o Egito, onde ficou até a morte de Herodes. — Mateus 2:14-15

"De noite." José não esperou o amanhecer. Acordou Maria. Pegou o menino. Saiu na escuridão.

A viagem até o Egito era de pelo menos uma semana — provavelmente mais, viajando com um bebê. Atravessando o deserto do Neguebe. Fugindo como refugiados.

O mesmo caminho que Abraão fez quando fugiu da fome (Gênesis 12:10). O mesmo caminho que Jacó fez quando levou a família para encontrar José (Gênesis 46). O mesmo caminho que Moisés fez na direção contrária, tirando Israel da escravidão.

Agora o menino que era maior que Abraão, maior que Jacó, maior que Moisés — fugia para o Egito nos braços de um carpinteiro.

E assim se cumpriu o que o Senhor dissera pelo profeta: "Do Egito chamei o meu filho." — Mateus 2:15

Oseias 11:1. No contexto original, fala do Êxodo — Deus chamando Israel (seu "filho") para fora do Egito.

Mateus vê mais fundo. Jesus recapitula a história de Israel. O que Israel viveu como nação, Jesus vive como pessoa. Israel foi para o Egito e foi chamado de volta. Jesus vai para o Egito e será chamado de volta.

Mas há uma diferença: Israel foi para o Egito por causa de fome e acabou em escravidão. Jesus foi para o Egito para escapar de um tirano e voltaria para enfrentar algo pior que Faraó.

Quando Herodes percebeu que havia sido enganado pelos magos, ficou furioso e ordenou que matassem todos os meninos de dois anos para baixo, em Belém e nas proximidades, de acordo com a informação que havia obtido dos magos. — Mateus 2:16

"Furioso" — ethymōthē, a mesma raiz de "fúria" em português. Herodes enlouqueceu de raiva.

Ele não sabia qual menino era. Então mataria todos.

"Dois anos para baixo" — baseado na informação sobre quando a estrela apareceu. Herodes calculou com margem. Se a estrela apareceu há dois anos, qualquer menino de até dois anos era alvo.

Belém era uma vila pequena. Estudiosos estimam que havia entre dez e trinta meninos nessa faixa etária. Não milhares — como algumas tradições posteriores imaginaram. Mas cada um era filho de alguém. Cada um tinha um nome.

O massacre não aparece em fontes históricas fora de Mateus. Isso não significa que não aconteceu. Significa que, para os padrões de Herodes — que matou esposa, sogra e filhos — matar algumas dezenas de bebês numa vila obscura nem merecia registro. Era apenas mais um dia.

Então se cumpriu o que fora dito pelo profeta Jeremias: "Ouviu-se uma voz em Ramá, choro e grande lamentação; é Raquel que chora por seus filhos e recusa ser consolada, porque já não existem." — Mateus 2:17-18

Jeremias 31:15. No contexto original, Raquel — a matriarca — chora pelos israelitas sendo levados ao exílio babilônico. Ramá era a cidade onde os exilados eram reunidos antes da deportação.

Mateus vê o eco. Séculos depois, mães em Belém choram pelos filhos mortos. A mesma dor. A mesma recusa de consolo.

E Raquel estava enterrada perto de Belém (Gênesis 35:19). A matriarca, no túmulo, chorava de novo por seus descendentes.

A teologia fácil não sobrevive a esta passagem.

Por que Deus salvou Jesus e não salvou os outros meninos? Por que o anjo avisou José e não avisou as outras famílias? Por que a providência protegeu um e abandonou muitos?

Mateus não responde. Apenas narra. Cumpriu-se a profecia. Raquel chora. Não há consolo.

O que sabemos é isto: o menino que escapou voltaria para morrer. A cruz que ele evitou em Belém o esperava em Jerusalém. E sua morte abriria caminho para que a morte não tivesse a última palavra sobre ninguém — nem sobre os meninos de Belém.

Mas isso estava trinta anos no futuro. Naquele momento, havia apenas sangue e choro.

Depois que Herodes morreu, um anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito, e disse: "Levante-se, tome o menino e sua mãe e vá para a terra de Israel, pois estão mortos os que procuravam tirar a vida do menino." — Mateus 2:19-20

Herodes morreu em 4 a.C. — sim, Jesus nasceu "antes de Cristo" segundo nosso calendário mal calculado. A morte de Herodes foi horrível: doença intestinal, gangrena, vermes. O tirano que matou bebês morreu apodrecendo.

E o anjo veio de novo. Quarto sonho. Agora a mensagem era: volte.

"Estão mortos os que procuravam tirar a vida do menino." Plural. Não apenas Herodes, mas todos os que conspiravam com ele. A ameaça havia passado.

Então ele se levantou, tomou o menino e sua mãe e foi para a terra de Israel. — Mateus 2:21

A mesma obediência. Levantou-se. Tomou. Foi.

Mas, quando soube que Arquelau estava reinando na Judeia no lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Tendo sido advertido em sonho, retirou-se para a região da Galileia e foi viver numa cidade chamada Nazaré. — Mateus 2:22-23

Arquelau. Filho de Herodes. Igualmente brutal. Roma eventualmente o deporia por crueldade excessiva — o que, para padrões romanos, era dizer muito.

José ouviu sobre Arquelau e hesitou. Pela primeira vez, vemos cálculo humano antes da orientação divina. Ele teve medo. E então veio o quinto sonho: vá para a Galileia.

Nazaré. A vila obscura onde tudo começou. O lugar de onde nada de bom poderia vir — "Nazaré? Pode vir alguma coisa boa de lá?" (João 1:46).

Assim se cumpriu o que fora dito pelos profetas: "Ele será chamado Nazareno." — Mateus 2:23

Esta citação é estranha. Nenhum profeta diz exatamente isso. Mateus diz "profetas" — plural — sugerindo um tema, não uma citação única.

Duas possibilidades:

A primeira: nazir em hebraico significa "separado, consagrado" — como os nazireus. Jesus seria o consagrado por excelência.

A segunda: netser significa "rebento, broto". Isaías profetizou: "Do tronco de Jessé brotará um rebento" (Isaías 11:1). Jesus, o broto de Jessé, cresceria em Nazaré — a cidade cujo nome soa como "broto".

Trocadilho profético. O lugar obscuro carregava no nome a identidade do menino.

O menino crescia e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele. — Lucas 2:40

Lucas resume anos numa frase. Jesus cresceu. Como qualquer criança. Aprendendo a andar. Aprendendo a falar. Aprendendo o ofício do pai. Brincando nas ruas de Nazaré. Indo à sinagoga todo sábado.

Deus em forma de menino. Crescendo. Se fortalecendo. Enchendo-se de sabedoria.

A graça de Deus estava sobre ele — e ele era a graça de Deus.

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