Capítulo II
Nascimento e Infância
Parte IX — A Fuga e o Massacre
A ordem veio de noite.
Depois que partiram, um anjo do Senhor apareceu a José em sonho e disse: "Levante-se, tome o menino e sua mãe, e fuja para o Egito. Fique lá até que eu diga, pois Herodes vai procurar o menino para matá-lo." — Mateus 2:13
Terceiro sonho de José. Cada vez mais urgente.
O primeiro: não tema receber Maria. O segundo: os magos, avisados para não voltar. O terceiro: fuja. Agora.
"Levante-se" — imperativo. "Tome" — imperativo. "Fuja" — imperativo. Três ordens. Sem explicação. Sem tempo para planejar.
Assim, ele se levantou, tomou de noite o menino e sua mãe, e partiu para o Egito, onde ficou até a morte de Herodes. — Mateus 2:14-15
"De noite." José não esperou o amanhecer. Acordou Maria. Pegou o menino. Saiu na escuridão.
A viagem até o Egito era de pelo menos uma semana — provavelmente mais, viajando com um bebê. Atravessando o deserto do Neguebe. Fugindo como refugiados.
O mesmo caminho que Abraão fez quando fugiu da fome (Gênesis 12:10). O mesmo caminho que Jacó fez quando levou a família para encontrar José (Gênesis 46). O mesmo caminho que Moisés fez na direção contrária, tirando Israel da escravidão.
Agora o menino que era maior que Abraão, maior que Jacó, maior que Moisés — fugia para o Egito nos braços de um carpinteiro.
E assim se cumpriu o que o Senhor dissera pelo profeta: "Do Egito chamei o meu filho." — Mateus 2:15
Oseias 11:1. No contexto original, fala do Êxodo — Deus chamando Israel (seu "filho") para fora do Egito.
Mateus vê mais fundo. Jesus recapitula a história de Israel. O que Israel viveu como nação, Jesus vive como pessoa. Israel foi para o Egito e foi chamado de volta. Jesus vai para o Egito e será chamado de volta.
Mas há uma diferença: Israel foi para o Egito por causa de fome e acabou em escravidão. Jesus foi para o Egito para escapar de um tirano e voltaria para enfrentar algo pior que Faraó.
Quando Herodes percebeu que havia sido enganado pelos magos, ficou furioso e ordenou que matassem todos os meninos de dois anos para baixo, em Belém e nas proximidades, de acordo com a informação que havia obtido dos magos. — Mateus 2:16
"Furioso" — ethymōthē, a mesma raiz de "fúria" em português. Herodes enlouqueceu de raiva.
Ele não sabia qual menino era. Então mataria todos.
"Dois anos para baixo" — baseado na informação sobre quando a estrela apareceu. Herodes calculou com margem. Se a estrela apareceu há dois anos, qualquer menino de até dois anos era alvo.
Belém era uma vila pequena. Estudiosos estimam que havia entre dez e trinta meninos nessa faixa etária. Não milhares — como algumas tradições posteriores imaginaram. Mas cada um era filho de alguém. Cada um tinha um nome.
O massacre não aparece em fontes históricas fora de Mateus. Isso não significa que não aconteceu. Significa que, para os padrões de Herodes — que matou esposa, sogra e filhos — matar algumas dezenas de bebês numa vila obscura nem merecia registro. Era apenas mais um dia.
Então se cumpriu o que fora dito pelo profeta Jeremias: "Ouviu-se uma voz em Ramá, choro e grande lamentação; é Raquel que chora por seus filhos e recusa ser consolada, porque já não existem." — Mateus 2:17-18
Jeremias 31:15. No contexto original, Raquel — a matriarca — chora pelos israelitas sendo levados ao exílio babilônico. Ramá era a cidade onde os exilados eram reunidos antes da deportação.
Mateus vê o eco. Séculos depois, mães em Belém choram pelos filhos mortos. A mesma dor. A mesma recusa de consolo.
E Raquel estava enterrada perto de Belém (Gênesis 35:19). A matriarca, no túmulo, chorava de novo por seus descendentes.
A teologia fácil não sobrevive a esta passagem.
Por que Deus salvou Jesus e não salvou os outros meninos? Por que o anjo avisou José e não avisou as outras famílias? Por que a providência protegeu um e abandonou muitos?
Mateus não responde. Apenas narra. Cumpriu-se a profecia. Raquel chora. Não há consolo.
O que sabemos é isto: o menino que escapou voltaria para morrer. A cruz que ele evitou em Belém o esperava em Jerusalém. E sua morte abriria caminho para que a morte não tivesse a última palavra sobre ninguém — nem sobre os meninos de Belém.
Mas isso estava trinta anos no futuro. Naquele momento, havia apenas sangue e choro.
Depois que Herodes morreu, um anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito, e disse: "Levante-se, tome o menino e sua mãe e vá para a terra de Israel, pois estão mortos os que procuravam tirar a vida do menino." — Mateus 2:19-20
Herodes morreu em 4 a.C. — sim, Jesus nasceu "antes de Cristo" segundo nosso calendário mal calculado. A morte de Herodes foi horrível: doença intestinal, gangrena, vermes. O tirano que matou bebês morreu apodrecendo.
E o anjo veio de novo. Quarto sonho. Agora a mensagem era: volte.
"Estão mortos os que procuravam tirar a vida do menino." Plural. Não apenas Herodes, mas todos os que conspiravam com ele. A ameaça havia passado.
Então ele se levantou, tomou o menino e sua mãe e foi para a terra de Israel. — Mateus 2:21
A mesma obediência. Levantou-se. Tomou. Foi.
Mas, quando soube que Arquelau estava reinando na Judeia no lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Tendo sido advertido em sonho, retirou-se para a região da Galileia e foi viver numa cidade chamada Nazaré. — Mateus 2:22-23
Arquelau. Filho de Herodes. Igualmente brutal. Roma eventualmente o deporia por crueldade excessiva — o que, para padrões romanos, era dizer muito.
José ouviu sobre Arquelau e hesitou. Pela primeira vez, vemos cálculo humano antes da orientação divina. Ele teve medo. E então veio o quinto sonho: vá para a Galileia.
Nazaré. A vila obscura onde tudo começou. O lugar de onde nada de bom poderia vir — "Nazaré? Pode vir alguma coisa boa de lá?" (João 1:46).
Assim se cumpriu o que fora dito pelos profetas: "Ele será chamado Nazareno." — Mateus 2:23
Esta citação é estranha. Nenhum profeta diz exatamente isso. Mateus diz "profetas" — plural — sugerindo um tema, não uma citação única.
Duas possibilidades:
A primeira: nazir em hebraico significa "separado, consagrado" — como os nazireus. Jesus seria o consagrado por excelência.
A segunda: netser significa "rebento, broto". Isaías profetizou: "Do tronco de Jessé brotará um rebento" (Isaías 11:1). Jesus, o broto de Jessé, cresceria em Nazaré — a cidade cujo nome soa como "broto".
Trocadilho profético. O lugar obscuro carregava no nome a identidade do menino.
O menino crescia e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele. — Lucas 2:40
Lucas resume anos numa frase. Jesus cresceu. Como qualquer criança. Aprendendo a andar. Aprendendo a falar. Aprendendo o ofício do pai. Brincando nas ruas de Nazaré. Indo à sinagoga todo sábado.
Deus em forma de menino. Crescendo. Se fortalecendo. Enchendo-se de sabedoria.
A graça de Deus estava sobre ele — e ele era a graça de Deus.
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