Capítulo II
Nascimento e Infância
Parte X — O Menino no Templo
Dezoito anos de silêncio.
Entre o retorno do Egito e o início do ministério público, os Evangelhos registram apenas uma cena. Uma única janela para a infância de Jesus.
Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa. Quando ele completou doze anos de idade, subiram à festa, conforme o costume. — Lucas 2:41-42
A Páscoa. A maior festa judaica. A celebração do Êxodo — a noite em que o anjo da morte passou sobre as casas marcadas com sangue de cordeiro.
Três vezes por ano, todo homem judeu deveria ir a Jerusalém: na Páscoa, em Pentecostes e na Festa dos Tabernáculos (Deuteronômio 16:16). Mulheres e crianças não eram obrigados, mas muitas famílias iam juntas. José e Maria iam "todos os anos".
E agora Jesus tinha doze anos. A idade em que um menino judeu começava a transição para a vida adulta. Aos treze, seria bar mitzvah — "filho do mandamento" — plenamente responsável pela Lei. Esse era seu último ano como criança.
Terminada a festa, voltaram; mas o menino Jesus ficou em Jerusalém sem que seus pais o soubessem. — Lucas 2:43
Como isso foi possível?
As caravanas de peregrinos eram grandes. Homens frequentemente viajavam separados das mulheres e crianças. Um menino de doze anos poderia estar com qualquer grupo. José provavelmente pensou que Jesus estava com Maria. Maria provavelmente pensou que estava com José.
Pensando que ele estivesse entre os companheiros de viagem, seguiram caminho por um dia. Depois começaram a procurá-lo entre seus parentes e conhecidos. — Lucas 2:44
Um dia inteiro antes de perceberem. Imagine o momento em que José e Maria se encontraram ao acampar e perguntaram um ao outro: "Onde está Jesus?"
E a resposta foi silêncio.
Não o encontrando, voltaram a Jerusalém para procurá-lo. — Lucas 2:45
Voltaram. Outro dia de viagem — agora na direção contrária, agora com o coração acelerado.
Depois de três dias o encontraram no templo, sentado entre os mestres, ouvindo-os e fazendo-lhes perguntas. — Lucas 2:46
Três dias. O número reaparece. Três dias no túmulo. Três dias para reconstruir o templo (João 2:19). Três dias de busca antes de encontrá-lo.
E onde ele estava? No templo. Não perdido. Não vagando. Sentado entre os mestres da Lei — os maiores estudiosos de Israel — ouvindo e perguntando.
Todos os que o ouviam ficavam maravilhados com seu entendimento e suas respostas. — Lucas 2:47
"Maravilhados" — existanto, literalmente "fora de si". Os doutores de Israel, homens que passaram décadas estudando a Torá, estavam atordoados com as perguntas e respostas de um menino de doze anos.
Não era arrogância. O texto diz que ele "ouvia" e "perguntava". Ele participava como aluno. Mas suas perguntas revelavam algo. E suas respostas revelavam mais.
Quando seus pais o viram, ficaram perplexos. Sua mãe lhe disse: "Filho, por que você fez isso conosco? Seu pai e eu estávamos aflitos, à sua procura." — Lucas 2:48
"Aflitos" — odynomenoi, a mesma palavra usada para a dor do homem rico no Hades (Lucas 16:24-25). Maria não estava apenas preocupada. Estava em agonia.
E a pergunta dela é universal: por que você fez isso?
A resposta de Jesus é a primeira fala registrada dele nos Evangelhos.
Ele perguntou: "Por que vocês estavam me procurando? Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai?" — Lucas 2:49
"Meu Pai."
Não "nosso Pai". Não "Deus". Meu Pai.
É a primeira vez que Jesus fala de Deus como seu Pai de forma distinta. José estava ali. Maria acabou de dizer "seu pai e eu". E Jesus responde: meu Pai verdadeiro é outro. E esta é a casa dele.
"Não sabiam?" A pergunta implica que deveriam saber. Depois de tudo — o anjo, a concepção, os pastores, Simeão, os magos — deveriam entender que este menino tinha uma relação única com o Deus de Israel.
Mas não entenderam.
Eles, porém, não compreenderam o que lhes dizia. — Lucas 2:50
Mesmo Maria. Mesmo José. Não compreenderam.
Essa é a honestidade brutal de Lucas. Ele não esconde a confusão dos pais. Não romantiza. O mistério era grande demais. Mesmo para quem viveu os milagres do nascimento, a identidade plena de Jesus permanecia obscura.
Então ele desceu com eles para Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe, porém, guardava todas estas coisas em seu coração. — Lucas 2:51
"Era-lhes submisso."
Aquele que os mestres do templo admiravam voltou para casa e obedeceu a um carpinteiro e uma dona de casa. Aquele que chamou Deus de "meu Pai" se submeteu a pais terrenos.
A encarnação não era performance. Era real. Jesus viveu trinta anos de obediência ordinária antes de três anos de ministério extraordinário. Ele honrou pai e mãe — o mandamento que ele mesmo havia dado no Sinai.
"Sua mãe guardava todas estas coisas em seu coração."
De novo. Como na noite dos pastores (Lucas 2:19). Maria colecionava peças de um quebra-cabeça que só faria sentido décadas depois. Cada cena estranha. Cada palavra inexplicável. Guardava. Esperava. Confiava que um dia entenderia.
Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens. — Lucas 2:52
A última frase antes do silêncio.
Crescia em sabedoria — a mente se desenvolvendo, aprendendo, expandindo. Crescia em estatura — o corpo amadurecendo, ficando mais alto, mais forte. Crescia em graça diante de Deus — a comunhão com o Pai se aprofundando. Crescia em graça diante dos homens — as pessoas ao redor vendo algo especial.
O eterno Filho de Deus cresceu. Como criança. Como adolescente. Como jovem adulto.
Trabalhou na oficina de José. Leu a Torá na sinagoga de Nazaré. Celebrou festas. Frequentou casamentos. Viveu três décadas de vida comum numa vila desprezada.
E então, aos trinta anos, algo mudou.
Um homem estranho apareceu no deserto, vestido de pelos de camelo, pregando arrependimento e batizando no Jordão.
E Jesus foi até ele.
Fim do Capítulo 2: Nascimento e Infância
Este projeto é gratuito e feito com dedicação.
Se te abençoou, considere apoiar.