Capítulo III
O Início do Ministério
Parte I — A Voz no Deserto
Parte I: A Voz no Deserto
Trinta anos depois do nascimento de João, a voz finalmente soou.
No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judeia, Herodes tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe tetrarca da Itureia e Traconites, e Lisânias tetrarca de Abilene, sendo Anás e Caifás os sumos sacerdotes, veio a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto. — Lucas 3:1-2
Lucas, o historiador meticuloso, ancora a narrativa no tempo. Tibério César. Pôncio Pilatos. Herodes Antipas. Anás e Caifás. Nomes verificáveis. Datas conferíveis. Isso não é mito. É história.
"Veio a palavra de Deus a João."
A mesma fórmula usada para os profetas antigos. "Veio a palavra do Senhor a Jeremias" (Jeremias 1:4). "Veio a palavra do Senhor a Ezequiel" (Ezequiel 1:3). Depois de quatrocentos anos de silêncio, a fórmula profética reapareceu.
E veio a um homem no deserto.
Naqueles dias surgiu João Batista, pregando no deserto da Judeia. — Mateus 3:1
O deserto da Judeia. A região árida entre as montanhas de Jerusalém e o Mar Morto. Pedras. Calor. Solidão. O lugar onde Israel vagou quarenta anos. O lugar onde Elias fugiu de Jezabel. O lugar onde os profetas eram forjados.
João não pregava no templo. Não ensinava nas sinagogas. Não buscava aprovação das autoridades. Foi para o deserto — e as pessoas foram até ele.
E dizia: "Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo." — Mateus 3:2
Uma mensagem. Duas partes.
"Arrependam-se" — metanoeite, literalmente "mudem de mente". Não apenas sentir culpa. Mudar de direção. Virar o barco. Começar de novo.
"O Reino dos céus está próximo" — não está chegando num futuro distante. Está próximo. Às portas. Quase aqui.
João não explicava o Reino. Não definia. Apenas anunciava: está vindo. Prepare-se.
Este é aquele de quem o profeta Isaías falou: "Voz do que clama no deserto: 'Preparem o caminho do Senhor, façam retas as suas veredas'." — Mateus 3:3
Isaías 40:3. Setecentos anos antes.
No contexto original, Isaías falava do retorno do exílio babilônico — Deus conduzindo seu povo de volta através do deserto. As estradas seriam preparadas. Os obstáculos removidos. O Senhor viria.
Mas os quatro Evangelhos — todos os quatro — citam esse verso para João. O cumprimento final não era o retorno da Babilônia. Era este homem gritando às margens do Jordão.
E note: o texto diz "preparem o caminho do Senhor". João preparava o caminho para Jesus. Se Jesus é o Senhor do verso de Isaías, então Jesus é YHWH.
As roupas de João eram feitas de pelos de camelo, e ele usava um cinto de couro na cintura. O seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre. — Mateus 3:4
Descrição estranha. Por que Mateus menciona a roupa e a dieta?
Porque era uma citação visual.
O profeta Elias usava "roupas feitas de pelos, com um cinto de couro" (2 Reis 1:8). João se vestia como Elias. Deliberadamente. Visivelmente. Qualquer judeu que conhecesse as Escrituras olharia para João e pensaria: Elias voltou.
E Malaquias havia prometido: "Vejam, eu enviarei a vocês o profeta Elias antes do grande e temível dia do Senhor" (Malaquias 4:5).
Os gafanhotos e mel silvestre eram comida do deserto — alimento de quem vive fora da civilização, fora das estruturas normais de poder. João não dependia de ninguém. Não podia ser comprado. Não podia ser silenciado.
A população de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região do Jordão ia até ele. Confessando os seus pecados, eram batizados por ele no rio Jordão. — Mateus 3:5-6
As multidões vieram. De Jerusalém — a capital religiosa. De toda a Judeia — o coração do judaísmo. Até do outro lado do Jordão.
Eles confessavam pecados. Publicamente. E eram imersos nas águas do Jordão.
O batismo não era invenção de João. Os judeus praticavam imersões rituais — mikveh — para purificação. Prosélitos gentios eram batizados ao se converter. Mas João batizava judeus. Judeus nascidos na aliança. Como se precisassem recomeçar do zero.
Era ofensivo. Era radical. E as pessoas faziam fila para receber.
Quando viu que muitos fariseus e saduceus vinham para onde ele estava batizando, disse-lhes: "Raça de víboras! Quem lhes deu a ideia de fugir da ira que se aproxima?" — Mateus 3:7
João não fazia política. Não suavizava a mensagem para as autoridades.
Fariseus — os zelosos pela Lei, os separados, os respeitáveis. Saduceus — a elite sacerdotal, os aristocratas do templo, os pragmáticos.
João os chamou de víboras. Cobras. Serpentes venenosas.
"Quem lhes deu a ideia de fugir da ira?" Vocês acham que podem escapar fazendo o ritual sem mudar o coração?
"Deem fruto que mostre o arrependimento! Não pensem que vocês podem dizer a si mesmos: 'Abraão é nosso pai'. Pois eu digo que destas pedras Deus pode fazer surgir filhos a Abraão." — Mateus 3:8-9
O machado na raiz da identidade judaica.
Ser filho de Abraão não era garantia de nada. Pertencer ao povo escolhido não era passaporte automático. Deus podia levantar filhos de pedras se quisesse. A linhagem física não substituía a transformação real.
"O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo." — Mateus 3:10
Urgência absoluta. O machado não está sendo afiado. Não está sendo erguido. Já está posto à raiz. O corte é iminente.
As multidões perguntavam: o que devemos fazer?
João respondia: "Quem tem duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma, e quem tem comida faça o mesmo." — Lucas 3:11
Compartilhar. Justiça básica. Não ascetismo extremo — apenas deixar de acumular enquanto outros passam necessidade.
Publicanos — coletores de impostos, colaboradores de Roma, odiados por todos — também vieram.
"Mestre, o que devemos fazer?" "Não cobrem mais do que lhes foi estipulado", respondeu ele. — Lucas 3:12-13
Honestidade. Não explorar. Não extorquir. Fazer o trabalho sem roubar.
Soldados — provavelmente tropas de Herodes, judeus a serviço do poder — também perguntaram.
"E nós, o que devemos fazer?" Ele respondeu: "Não pratiquem extorsão nem façam falsas acusações; contentem-se com o seu salário." — Lucas 3:14
Não violência arbitrária. Não abuso de poder. Contentamento.
João não pediu que publicanos abandonassem o emprego. Não mandou soldados desertarem. Pediu que vivessem com justiça onde estavam. Arrependimento não era escapar da vida — era transformá-la.
O povo estava cheio de expectativa, e todos se perguntavam se João não seria o Cristo. — Lucas 3:15
A pergunta inevitável. Se este homem fala como Elias, se multidões correm ao deserto, se até fariseus tremem diante dele — será que ele é o Messias?
João respondeu:
"Eu os batizo com água para arrependimento. Mas depois de mim vem alguém mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de carregar. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo." — Mateus 3:11
"Não sou digno de carregar suas sandálias."
Tirar as sandálias do mestre era tarefa de escravos — e escravos gentios, não judeus. Era o trabalho mais baixo. E João diz: eu nem isso mereço fazer para ele.
O maior profeta desde Elias — e ele se considera menos que o menor escravo diante daquele que vem.
"Ele traz a pá de joeirar na mão e limpará a sua eira, recolhendo seu trigo no celeiro, mas queimando a palha com fogo que nunca se apaga." — Mateus 3:12
Imagem agrícola. O joeirar separava o trigo da palha. O vento levava o leve. O pesado ficava. Depois, a palha era queimada.
João anunciava não apenas salvação, mas julgamento. Não apenas batismo com Espírito, mas com fogo. Aquele que vinha traria separação. Trigo para o celeiro. Palha para o fogo.
E, com muitas outras palavras, João exortava o povo e lhe anunciava as boas-novas. — Lucas 3:18
"Boas-novas" — euangelizeto, o verbo de onde vem "evangelizar". Mesmo a mensagem dura era boa notícia. O machado à raiz era boa notícia. O julgamento iminente era boa notícia.
Porque significava que a espera havia acabado.
O Reino estava chegando.
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