Patrick Nekel
Harmonia Dos Evangelhos

Capítulo III

O Início do Ministério

Parte II — O Batismo

E então ele veio.

Então Jesus veio da Galileia ao Jordão para ser batizado por João. — Mateus 3:13

Sem anúncio. Sem comitiva. Sem trombetas. Jesus simplesmente apareceu na fila.

O homem que João anunciava — aquele cujas sandálias ele não era digno de carregar — veio como qualquer outro. Um galileu entre galileus. Um pecador entre pecadores.

Exceto que ele não era pecador.

João, porém, tentou impedi-lo, dizendo: "Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?" — Mateus 3:14

João reconheceu. De alguma forma — talvez pela memória do salto no ventre de Isabel, talvez por revelação direta — ele soube quem estava diante dele.

E protestou. O batismo de João era para arrependimento. Jesus não tinha do que se arrepender. A lógica estava invertida. O maior não deveria se submeter ao menor.

Jesus, porém, respondeu: "Deixe assim por enquanto; convém que assim façamos, para cumprir toda a justiça." Então João consentiu. — Mateus 3:15

"Para cumprir toda a justiça."

A frase é enigmática. O que significa?

Talvez: Jesus se identificando com o povo que veio salvar. O médico entrando no hospital dos doentes. O justo se colocando na fila dos injustos. "Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus" (2 Coríntios 5:21).

Talvez: o padrão messiânico sendo estabelecido desde o início. O servo antes do rei. A humildade antes da exaltação. "Ele se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz" (Filipenses 2:8).

Talvez: a inauguração pública do ministério. Como os sacerdotes eram lavados antes de assumirem suas funções (Êxodo 29:4), Jesus era imerso antes de começar.

Todas as respostas são parciais. O mistério permanece.

João consentiu.

Assim que Jesus foi batizado, saiu da água. Naquele momento os céus se abriram, e ele viu o Espírito de Deus descendo como pomba e pousando sobre ele. — Mateus 3:16

O céu se abriu.

Desde Malaquias, o céu parecia fechado. Nenhuma visão. Nenhuma voz. Quatrocentos anos de silêncio. E agora, sobre as águas do Jordão, a barreira se rompeu.

O Espírito desceu. Como pomba — não em forma de pomba, mas "como pomba". Suave. Deliberado. Pousando, não atacando.

A última vez que o Espírito pairou sobre águas foi no início: "O Espírito de Deus pairava sobre a face das águas" (Gênesis 1:2). Nova criação começando. Novo mundo emergindo das águas.

E a pomba lembra Noé. Depois do dilúvio, a pomba voltou com um ramo de oliveira — sinal de que as águas haviam baixado, de que havia terra firme, de que a morte não tinha a última palavra (Gênesis 8:11).

Aqui, a pomba desce sobre Jesus. As águas do julgamento ficaram para trás. A nova era começava.

Então uma voz dos céus disse: "Este é o meu Filho amado, em quem me agrado." — Mateus 3:17

A voz do Pai.

Quebrando o silêncio de séculos. Falando sobre o Filho. Diante do Espírito que descia.

A Trindade — nunca nomeada assim nos Evangelhos, mas presente em cada detalhe. Pai falando. Filho emergindo das águas. Espírito descendo. Três pessoas. Um momento. Uma missão.

"Este é o meu Filho amado."

As palavras ecoam o Salmo 2: "Tu és meu Filho; eu hoje te gerei" (Salmo 2:7). O salmo de coroação. O rei sendo declarado. Mas aqui não há trono ou coroa — apenas um homem molhado às margens de um rio.

"Em quem me agrado."

Ecoa Isaías: "Eis o meu servo, a quem sustento; o meu escolhido, em quem a minha alma se compraz" (Isaías 42:1). O servo sofredor. Aquele que seria ferido pelas transgressões do povo. O cordeiro levado ao matadouro.

Duas identidades em uma declaração: Rei (Salmo 2) e Servo (Isaías 42). Glória e sofrimento. Coroa e cruz.

João testemunhou.

"Eu vi o Espírito descer dos céus como pomba e permanecer sobre ele. Eu não o teria reconhecido, se aquele que me enviou para batizar com água não me tivesse dito: 'Aquele sobre quem você vir o Espírito descer e permanecer, esse é o que batiza com o Espírito Santo.'" — João 1:32-33

Deus havia dado a João um sinal. Não confie apenas na intuição. Não confie apenas no salto no ventre da sua mãe. Espere o sinal: o Espírito descerá e permanecerá.

O Espírito vinha sobre profetas e reis no Antigo Testamento. Mas vinha e ia. Saul perdeu o Espírito (1 Samuel 16:14). Sansão perdeu o Espírito (Juízes 16:20). O Espírito capacitava para tarefas, mas não permanecia para sempre.

Sobre Jesus, o Espírito permaneceu. Não visitação temporária. Habitação permanente. Porque Jesus não era apenas ungido pelo Espírito — ele era um com o Pai que enviou o Espírito.

"Eu vi, e dou testemunho de que este é o Filho de Deus." — João 1:34

O testemunho de João. Oficial. Público. Definitivo.

Este é o Filho de Deus.

Não "um" filho. O Filho. O único. O amado. Aquele que estava no princípio. Aquele pelo qual todas as coisas foram feitas. Aquele que agora emergia das águas do Jordão, molhado como qualquer mortal, marcado pelo Espírito como ninguém antes.

No dia seguinte, João viu Jesus passando e disse algo estranho.

"Vejam! É o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!" — João 1:29

Cordeiro.

Não leão. Não rei. Não conquistador. Cordeiro.

A palavra evocava mil e quinhentos anos de história. O cordeiro pascal no Egito — cujo sangue nas portas fez o anjo da morte passar adiante (Êxodo 12). O cordeiro do sacrifício diário no templo — oferecido toda manhã e toda tarde (Êxodo 29:38-39). O cordeiro de Isaías — "como um cordeiro foi levado ao matadouro" (Isaías 53:7).

João via adiante. Via a cruz antes da cruz. Via o sangue antes do sangue. Via que este homem não vinha para derrotar Roma — vinha para morrer.

"Que tira o pecado do mundo."

Não apenas de Israel. Do mundo. João, o profeta judeu, anunciava salvação universal. O cordeiro seria sacrificado não apenas pelos filhos de Abraão, mas por toda a humanidade.

"Este é aquele de quem eu disse: Depois de mim vem um homem que é superior a mim, porque já existia antes de mim." — João 1:30

"Já existia antes de mim."

João nasceu seis meses antes de Jesus. Em termos humanos, João era mais velho. Mas em termos eternos, Jesus era anterior. "Antes de Abraão nascer, Eu Sou" (João 8:58).

João sabia. Este homem que caminhava pela beira do rio, com roupas simples e pés empoeirados, era mais antigo que o universo.

O batismo terminou. Jesus saiu das águas. O Espírito permanecia sobre ele. A voz do Pai ainda ecoava nos ouvidos de quem ouviu.

E então o Espírito o levou para o deserto.

Não para pregar. Não para reunir discípulos. Para ser tentado.

O ministério público começaria com quarenta dias de fome e confronto com o diabo.

O cordeiro seria testado antes de ser sacrificado.

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