Capítulo III
O Início do Ministério
Parte III — A Tentação
O Espírito que desceu sobre ele agora o conduzia ao deserto.
A seguir, Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. — Mateus 4:1
Não por acidente. Não por desvio. O Espírito conduziu. A tentação fazia parte do plano.
O primeiro Adão foi tentado num jardim perfeito — com toda provisão ao alcance — e caiu. O segundo Adão seria tentado num deserto estéril — com fome e solidão — e permaneceria de pé.
Depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome. — Mateus 4:2
Quarenta dias. O número ressoa.
Moisés ficou quarenta dias no Sinai antes de receber a Lei (Êxodo 24:18). Elias caminhou quarenta dias até o Horebe (1 Reis 19:8). Israel vagou quarenta anos no deserto antes de entrar na terra prometida (Números 14:33).
Quarenta é tempo de preparação. Tempo de teste. Tempo de forja.
"Teve fome." Mateus registra o óbvio. Quarenta dias sem comer. O corpo quebrando. A mente enfraquecida. Era nesse momento — no ponto mais baixo — que o tentador apareceu.
O tentador aproximou-se dele e disse: "Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães." — Mateus 4:3
"Se tu és o Filho de Deus."
A voz do Pai havia acabado de declarar: "Este é o meu Filho amado." E agora o diabo questiona: se é mesmo, prove.
A tentação não era apenas sobre comida. Era sobre identidade. Sobre usar poder divino para satisfação pessoal. Sobre transformar pedras em pães quando o Pai não mandou transformar.
Era legítimo comer? Sim. Jesus tinha poder para criar pão? Sim. Mas fazer isso sob demanda do inimigo, fora do tempo do Pai, seria desobediência disfarçada de lógica.
Jesus respondeu: "Está escrito: 'Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.'" — Mateus 4:4
Deuteronômio 8:3. Moisés explicando por que Deus deixou Israel passar fome no deserto antes de enviar o maná: para ensinar que a vida vem da palavra de Deus, não apenas de comida.
Jesus cita a Escritura. Não argumenta. Não debate. Não filosofa. Apenas: está escrito.
E note: ele poderia ter respondido como Deus. Poderia ter dito "Eu sou a Palavra que procede da boca de Deus." Mas respondeu como homem. Como servo. Como alguém sob a autoridade das Escrituras que ele mesmo inspirou.
Então o diabo o levou à cidade santa, colocou-o na parte mais alta do templo e lhe disse: "Se tu és o Filho de Deus, joga-te dali para baixo. Pois está escrito: 'Ele dará ordens a seus anjos a teu respeito, e com as mãos eles te segurarão, para que você não tropece em alguma pedra.'" — Mateus 4:5-6
O diabo aprendeu. Se Jesus usa Escritura, ele também usará.
Salmo 91:11-12. Um salmo de proteção divina. O tentador cita corretamente — e perverte completamente.
Confiar em Deus é uma coisa. Testar Deus é outra. Pular do templo para forçar um resgate angélico não seria fé — seria manipulação. Seria tratar Deus como máquina de milagres acionada sob demanda.
Jesus respondeu: "Também está escrito: 'Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus.'" — Mateus 4:7
Deuteronômio 6:16. Referência a Massá, onde Israel testou Deus exigindo água (Êxodo 17:7). "O Senhor está entre nós ou não?" — perguntaram. Queriam prova. Queriam demonstração. Não queriam confiar.
Jesus não pulou. Confiava no Pai sem precisar de acrobacias.
E havia algo mais nessa tentação. O templo era o centro do poder religioso judaico. Aparecer miraculosamente ali, descendo do céu sustentado por anjos, seria a entrada triunfal perfeita. O povo aclamaria. Os sacerdotes se curvariam. O Messias seria reconhecido instantaneamente.
Mas não era assim que deveria acontecer. A entrada de Jesus em Jerusalém seria em um jumento. E o templo o rejeitaria antes de crucificá-lo.
Depois, o diabo o levou a um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e o seu esplendor. E lhe disse: "Tudo isto te darei, se te prostrares e me adorares." — Mateus 4:8-9
A terceira tentação. A mais direta.
"Tudo isto te darei." O diabo reivindica propriedade sobre os reinos do mundo. E, de certa forma, tinha razão. Jesus o chamaria de "príncipe deste mundo" (João 12:31). Paulo o chamaria de "deus desta era" (2 Coríntios 4:4). Desde a queda de Adão, algo havia sido entregue ao inimigo.
E agora o inimigo oferecia de volta. Sem cruz. Sem sofrimento. Sem morte. Apenas um gesto: prostrar-se. Adorar.
Era atalho. Jesus veio para reinar sobre todos os reinos. Mas o caminho passava pelo Gólgota, não por um acordo no deserto. O trono viria — depois do túmulo.
Jesus lhe disse: "Retire-se, Satanás! Pois está escrito: 'Adore o Senhor, o seu Deus, e só a ele preste culto.'" — Mateus 4:10
Deuteronômio 6:13. O coração do monoteísmo. Um só Deus. Uma só adoração. Nada mais.
"Retire-se, Satanás." Jesus não negocia. Não considera. Ordena. E o inimigo obedece.
Então o diabo o deixou, e anjos vieram e o serviram. — Mateus 4:11
O tentador foi embora. Mas Lucas acrescenta: "até ocasião oportuna" (Lucas 4:13). Ele voltaria. No Getsêmani. Na cruz. Através de Pedro. Através de Judas. A batalha do deserto foi apenas a primeira rodada.
E os anjos vieram servir. O que Jesus recusou receber por manipulação — proteção e provisão angélica — recebeu por obediência. O Pai cuidou do Filho que confiou nele.
Três tentações. Três respostas da Escritura. Três vitórias.
A primeira: satisfazer a carne fora da vontade do Pai. Recusada. A segunda: forçar a mão de Deus com espetáculo. Recusada. A terceira: obter o reino sem a cruz. Recusada.
Israel enfrentou tentações semelhantes no deserto — e falhou em todas. Reclamou de comida. Testou Deus em Massá. Adorou o bezerro de ouro.
Jesus, o verdadeiro Israel, enfrentou as mesmas provas — e venceu.
"Pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado" (Hebreus 4:15).
Ele sabe o que é fome. Sabe o que é pressão para provar-se. Sabe o que é a oferta de atalhos. Passou por tudo. E não cedeu.
O cordeiro foi testado. E estava sem defeito.
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