Patrick Nekel
Harmonia Dos Evangelhos

Capítulo III

O Início do Ministério

Parte IV — Os Primeiros Discípulos

Depois do deserto, Jesus voltou ao Jordão.

João ainda estava lá, batizando, apontando, esperando. E agora o momento chegou.

No dia seguinte, João estava ali com dois dos seus discípulos. — João 1:35

João tinha discípulos. Seguidores. Pessoas que deixaram suas vidas para aprender com ele. Mas João sabia que seu papel era temporário. Ele era a voz — não a Palavra.

Quando viu Jesus passando, disse: "Vejam! É o Cordeiro de Deus!" — João 1:36

Segunda vez que João usa esse título. O cordeiro de Deus. O sacrifício que tiraria o pecado do mundo.

Os dois discípulos ouviram-no dizer isso e seguiram a Jesus. — João 1:37

Simplesmente seguiram. Sem convite formal. Sem cerimônia. Ouviram o mestre apontar e foram atrás do apontado.

João não protestou. Não tentou reter. Era para isso que ele existia: diminuir para que o outro crescesse.

Voltando-se e vendo que o seguiam, Jesus perguntou: "O que vocês querem?" — João 1:38

A primeira pergunta de Jesus registrada no Evangelho de João. Direta. Sem rodeios. O que vocês querem?

Disseram eles: "Rabi" (que significa "Mestre"), "onde estás hospedado?" — João 1:38

Eles não pediram milagres. Não pediram teologia. Pediram endereço. Queriam saber onde ele morava. Queriam tempo. Queriam proximidade.

Respondeu ele: "Venham e vejam." — João 1:39

Venham e vejam. Não "leiam sobre mim". Não "ouçam o que dizem de mim". Venham. Vejam. A fé começa com presença.

Eles foram, viram onde ele estava hospedado e passaram aquele dia com ele. Eram cerca de quatro horas da tarde. — João 1:39

João lembra a hora. Décadas depois, escrevendo seu Evangelho, ele ainda lembrava: quatro horas da tarde. O momento era inesquecível. O dia que mudou tudo.

Um dos dois era André. O outro não é nomeado — tradição antiga diz que era o próprio João, autor do Evangelho, que por modéstia evitava mencionar-se diretamente.

André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido o que João dissera e que haviam seguido Jesus. Ele encontrou primeiro a seu irmão Simão e lhe disse: "Achamos o Messias" (isto é, o Cristo). — João 1:40-41

"Achamos o Messias."

Não "achamos um mestre interessante". Não "achamos um profeta". O Messias. O ungido. Aquele que Israel esperava há séculos.

Uma tarde com Jesus foi suficiente para André concluir isso.

E o levou a Jesus. Jesus olhou para ele e disse: "Você é Simão, filho de João. Você será chamado Cefas" (que traduzido é Pedro). — João 1:42

Jesus olhou — emblepsas, olhar penetrante, olhar que atravessa — e deu um novo nome.

Simão significava "aquele que ouve". Cefas (Pedro) significava "rocha". De ouvinte a fundamento. De receptor passivo a alicerce.

Mas isso levaria tempo. O Simão que Jesus encontrou naquele dia era impulsivo, medroso, inconsistente. A rocha seria esculpida ao longo de três anos de convivência, fracasso e restauração.

Jesus via o que a pessoa seria — não apenas o que era.

No dia seguinte, Jesus decidiu partir para a Galileia. Encontrando Filipe, disse-lhe: "Siga-me." — João 1:43

Primeiro chamado direto. "Siga-me." Duas palavras. Nenhuma explicação. Nenhuma promessa de benefícios. Apenas: venha atrás de mim.

Filipe, como André e Pedro, era da cidade de Betsaida. — João 1:44

Três dos primeiros discípulos vinham de Betsaida — uma vila de pescadores na margem norte do Mar da Galileia. Gente simples. Trabalhadores braçais. Não eram escribas nem fariseus.

Filipe encontrou Natanael e lhe disse: "Achamos aquele sobre quem Moisés escreveu na Lei, e a respeito de quem os profetas também escreveram: Jesus de Nazaré, filho de José." — João 1:45

Filipe faz a conexão. Moisés escreveu sobre ele. Os profetas escreveram. Toda a Escritura aponta para este homem.

Mas havia um problema.

Perguntou Natanael: "Nazaré? Pode vir alguma coisa boa de lá?" — João 1:46

O preconceito era real. Nazaré era uma vila insignificante. Não aparece no Antigo Testamento. Não produziu profetas nem reis. Nenhuma promessa messiânica mencionava Nazaré.

E agora alguém dizia que o Messias — aquele prometido desde Abraão, anunciado por todos os profetas — era um nazareno?

Natanael duvidou.

Disse-lhe Filipe: "Venha e veja." — João 1:46

A mesma resposta que Jesus deu a André e João. Venha e veja. Não discuta. Não debata. Venha. O encontro resolve o que o argumento não consegue.

Quando Jesus viu Natanael se aproximando, disse a seu respeito: "Aí está um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade." — João 1:47

Jesus viu Natanael antes de Natanael dizer qualquer coisa. E descreveu seu caráter: israelita verdadeiro. Sem falsidade. Sem máscara.

Perguntou Natanael: "De onde me conheces?" — João 1:48

Pergunta legítima. Nunca haviam se encontrado. Como Jesus sabia quem ele era?

Respondeu Jesus: "Eu o vi quando você ainda estava debaixo da figueira, antes de Filipe chamá-lo." — João 1:48

Debaixo da figueira. Lugar de oração e meditação. O que Natanael estava fazendo ali? Orando? Estudando a Torá? Lutando com dúvidas? O texto não diz.

Mas Jesus viu. Não estava presente — mas viu. Conhecimento sobrenatural. Olhar que atravessava distâncias.

Então Natanael declarou: "Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!" — João 1:49

De cético a adorador em segundos.

"Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?" E agora: "Tu és o Filho de Deus, o Rei de Israel."

Uma demonstração de conhecimento impossível bastou. Natanael saltou do ceticismo para a confissão mais alta.

Disse Jesus: "Você crê porque eu disse que o vi debaixo da figueira. Você verá coisas maiores do que essa." — João 1:50

O que convenceu Natanael era apenas o começo. Um aperitivo. O menu principal ainda viria.

E acrescentou: "Em verdade, em verdade lhes digo: Vocês verão o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem." — João 1:51

Gênesis 28. Jacó fugindo de Esaú, dormindo com uma pedra por travesseiro, sonhando com uma escada que ligava a terra ao céu. Anjos subindo e descendo. E Deus no topo dizendo: "Eu sou o Senhor, o Deus de seu pai Abraão" (Gênesis 28:13).

Jesus toma a imagem e a aplica a si mesmo. A escada sou eu. A conexão entre céu e terra sou eu. Os anjos sobem e descem sobre mim.

Jacó chamou aquele lugar de Betel — "casa de Deus". Agora a casa de Deus caminhava pela Galileia em forma humana.

Cinco homens em dois dias. André. João. Pedro. Filipe. Natanael.

Pescadores. Céticos. Gente comum.

Nenhum deles entendia plenamente o que estava acontecendo. Nenhum imaginava onde aquele caminho levaria. Mas seguiram.

E o primeiro sinal público estava prestes a acontecer.

Conexões

  • Gênesis 28:12 — O sonho de Jacó: escada entre céu e terra
  • Daniel 7:13-14 — O Filho do Homem recebe domínio e reino eterno
  • Isaías 49:3 — "Tu és meu servo, Israel, em quem serei glorificado"
  • João 21:15-17 — Pedro restaurado: "Apascenta minhas ovelhas"
  • Mateus 16:18 — "Tu és Pedro, e sobre esta rocha edificarei minha igreja"
  • Atos 1:8 — Os discípulos serão testemunhas até os confins da terra

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