Capítulo III
O Início do Ministério
Parte V — As Bodas de Caná
Três dias depois, um casamento.
No terceiro dia houve um casamento em Caná da Galileia. A mãe de Jesus estava ali; Jesus e seus discípulos também haviam sido convidados para o casamento. — João 2:1-2
Caná. Uma vila pequena a poucos quilômetros de Nazaré. Provavelmente parentes ou amigos da família. Maria estava lá — talvez ajudando com os preparativos, como era costume.
E Jesus veio com seus novos discípulos. Cinco homens que o seguiam há poucos dias. Nenhum milagre ainda. Nenhuma demonstração pública. Apenas um rabino galileu com um pequeno grupo de seguidores.
Quando acabou o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: "Eles não têm mais vinho." — João 2:3
Crise social.
Um casamento judaico durava dias — às vezes uma semana inteira. O anfitrião era responsável por prover comida e bebida para todos os convidados. Ficar sem vinho era humilhação pública. Vergonha que marcaria a família por anos.
Maria percebeu o problema. E foi até Jesus.
Não há pedido explícito no texto. Apenas a informação: "Eles não têm mais vinho." Mas a implicação era clara. Ela esperava que ele fizesse algo.
"Mulher, que temos nós em comum? A minha hora ainda não chegou." — João 2:4
A resposta parece dura. "Mulher" — não era ofensivo em grego, mas também não era carinhoso como "mãe". Jesus estava criando distância.
"Que temos nós em comum?" — literalmente, "o que há entre mim e ti?" Uma frase que marcava separação. Meus propósitos não são os teus.
"A minha hora ainda não chegou." A "hora" de Jesus no Evangelho de João é sempre a hora da cruz. O momento do clímax. A razão pela qual ele veio. Essa hora ainda estava distante.
Mas Maria não recuou.
Sua mãe disse aos serventes: "Façam tudo o que ele disser." — João 2:5
Maria confiava. Mesmo sem entender completamente, mesmo depois da resposta estranha, ela disse aos serventes: obedeçam. Façam o que ele mandar.
Era a última fala registrada de Maria nos Evangelhos. E foi sobre obediência a Jesus.
Havia ali seis potes de pedra, do tipo usado pelos judeus para as purificações rituais, cada um com capacidade para setenta e cinco a cem litros. — João 2:6
Seis potes. Pedra — não barro, porque pedra não absorve impureza ritual. Usados para lavagens cerimoniais antes das refeições. Cada um comportando entre setenta e cinco e cem litros.
Faça a conta. Seis potes. Média de oitenta e cinco litros cada. Mais de quinhentos litros no total.
"Encham os potes com água." — João 2:7
E os encheram até a borda. Não sobrava espaço para mais nada. Água pura. Água ritual. Água para purificação.
"Agora tirem um pouco e levem ao encarregado da festa." — João 2:8
Eles assim fizeram. Jesus não tocou nos potes. Não fez gestos dramáticos. Não pronunciou fórmulas. Apenas mandou tirar e levar.
O encarregado da festa provou a água que havia se transformado em vinho. Ele não sabia de onde viera, embora o soubessem os serventes que tinham tirado a água. Então chamou o noivo e disse: "Todos servem primeiro o melhor vinho e, depois que os convidados já beberam bastante, o vinho inferior; mas você guardou o melhor até agora." — João 2:9-10
O encarregado não sabia da origem. Mas sabia da qualidade. Era o melhor vinho. Melhor que o primeiro. Melhor que qualquer coisa servida até então.
A lógica dos anfitriões era servir o bom primeiro, enquanto o paladar estava fresco. Depois, quando todos já haviam bebido bastante, vinha o inferior — ninguém notaria a diferença.
Jesus inverteu a ordem. O melhor veio por último.
João interpreta:
Este sinal miraculoso, em Caná da Galileia, foi o primeiro que Jesus realizou. Revelou assim a sua glória, e os seus discípulos creram nele. — João 2:11
"Sinal" — semeion em grego. João não usa a palavra "milagre" (dynamis). Para João, os atos sobrenaturais de Jesus são sinais. Apontam para algo além de si mesmos. Revelam quem ele é.
"Revelou a sua glória." A glória que João viu no prólogo: "Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai" (João 1:14). Em Caná, um lampejo dessa glória brilhou através da transformação de água em vinho.
"E os seus discípulos creram nele." A fé deles se aprofundou. Já haviam deixado João Batista para seguir Jesus. Já haviam passado um dia com ele. Mas agora viram poder. Viram glória. E creram mais.
O que significa esse sinal?
Água em vinho. Purificação em celebração. O ritual cedendo lugar à festa.
Os potes eram para purificação judaica — parte do sistema de leis que marcava Israel como povo separado. Jesus transformou essa água em algo diferente. Não destruiu os potes. Não rejeitou o sistema. Transformou-o de dentro.
O vinho na Escritura é símbolo de alegria, de abundância, de era messiânica. Os profetas prometiam: "Naquele dia os montes destilarão vinho novo" (Amós 9:13). "O Senhor dos Exércitos preparará para todos os povos, neste monte, um banquete de carnes gordas, um banquete de vinhos velhos" (Isaías 25:6).
O Messias chegou. E trouxe vinho. Quinhentos litros de vinho. Da melhor qualidade.
A festa começava.
E havia outro símbolo, mais sombrio.
Na última ceia, Jesus pegaria um cálice de vinho e diria: "Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos" (Marcos 14:24).
O vinho de Caná apontava para o sangue do Calvário. A alegria do casamento prefigurava o sacrifício do noivo.
Jesus falou de "sua hora" que ainda não havia chegado. Quando a hora chegasse, não seria vinho — seria sangue. Não seria festa — seria cruz.
Mas naquele dia em Caná, ainda era festa. Ainda era celebração. O noivo terreno não sabia de onde vinha o vinho. Mas os serventes sabiam. E os discípulos começavam a entender.
Depois disso, ele desceu a Cafarnaum com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos. Ali ficaram durante alguns dias. — João 2:12
Jesus tinha irmãos. Filhos de Maria e José, nascidos depois dele. Tiago, José, Simão, Judas — Mateus lista os nomes (Mateus 13:55). E havia irmãs também.
Neste momento, eles não acreditavam nele. João registraria mais tarde: "Nem os seus irmãos criam nele" (João 7:5). Convivência diária não produz fé automaticamente. Às vezes, a familiaridade cega.
Mas isso mudaria. Depois da ressurreição, Tiago — o irmão — se tornaria líder da igreja de Jerusalém (Atos 15:13). Judas — outro irmão — escreveria uma carta que entraria no cânon do Novo Testamento.
A fé deles veio depois. Naquele momento, apenas acompanhavam.
O primeiro sinal havia sido dado. Água em vinho. Glória revelada.
E agora Jesus se preparava para subir a Jerusalém. A Páscoa se aproximava.
O templo o esperava.
Conexões
- Amós 9:13 — "Os montes destilarão vinho novo" (era messiânica)
- Isaías 25:6 — O banquete de vinhos velhos no monte do Senhor
- Isaías 55:1 — "Venham, comprem vinho e leite sem dinheiro"
- João 19:34 — Sangue e água do lado de Jesus
- Marcos 14:24 — "Isto é o meu sangue da aliança"
- João 4:46-54 — O segundo sinal em Caná (cura do filho do oficial)
- Apocalipse 19:7-9 — As bodas do Cordeiro
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