Capítulo III
O Início do Ministério
Parte VII — A Noite com Nicodemos
Parte VII: A Noite com Nicodemos
Havia um homem entre os fariseus.
Havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, uma autoridade entre os judeus. — João 3:1
Nicodemos. O nome significa "vencedor do povo" em grego. Era fariseu — do grupo mais rigoroso na observância da Lei. Era membro do Sinédrio — o conselho supremo de Israel, setenta homens que governavam a vida religiosa e civil da nação.
Este homem tinha tudo. Status. Conhecimento. Poder. Respeito.
E veio a Jesus de noite.
Ele veio a Jesus, à noite, e disse: "Rabi, sabemos que ensinas da parte de Deus, pois ninguém pode realizar os sinais miraculosos que fazes, se Deus não estiver com ele." — João 3:2
Por que de noite?
Talvez por medo. Ser visto com Jesus poderia comprometer sua posição. Os outros líderes já estavam desconfiados daquele galileu que expulsava mercadores do templo.
Talvez por prudência. Queria uma conversa longa, sem interrupções, longe das multidões.
Ou talvez João quisesse que notássemos o simbolismo. Nicodemos vem na escuridão — e Jesus é a luz. O encontro entre trevas e luz.
Seja qual for a razão, ele veio. E isso já era coragem.
Nicodemos começou com um elogio. "Sabemos que ensinas da parte de Deus." Usou o plural — talvez outros líderes pensassem como ele, mas não ousassem vir.
Jesus não respondeu ao elogio. Cortou direto ao essencial.
"Digo a verdade: Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo." — João 3:3
"Nascer de novo" — a expressão grega é gennēthē anōthen. E anōthen tem dois significados: "de novo" e "do alto". O duplo sentido é intencional. Para ver o Reino, é preciso nascer novamente — e esse nascimento vem do alto.
Nicodemos entendeu apenas o primeiro sentido.
Perguntou Nicodemos: "Como alguém pode nascer, sendo velho? É claro que não pode entrar pela segunda vez no ventre de sua mãe e renascer!" — João 3:4
A pergunta soa ingênua. Nicodemos era mestre em Israel — sabia que Jesus não falava literalmente. Mas a afirmação era tão radical que ele precisava de esclarecimento.
Nascer de novo? Todo o sistema religioso de Nicodemos era baseado em esforço, obediência, mérito. E agora Jesus dizia que nada disso bastava. Era preciso começar do zero. Nascer outra vez.
Jesus explicou.
"Digo a verdade: Ninguém pode entrar no Reino de Deus, se não nascer da água e do Espírito." — João 3:5
Água e Espírito. O que isso significa?
Alguns veem o batismo de João — água de arrependimento. Outros veem o nascimento físico — água do ventre. Mas há uma conexão mais profunda.
O profeta Ezequiel havia prometido: "Aspergirei água pura sobre vocês, e vocês ficarão purificados... Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês... Porei o meu Espírito em vocês e os levarei a agirem segundo os meus decretos" (Ezequiel 36:25-27).
Água e Espírito. Purificação e transformação. Ezequiel falava da nova aliança — o dia em que Deus mudaria o coração de seu povo de dentro para fora.
Nicodemos, mestre de Israel, deveria conhecer essa promessa.
"O que nasce da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito." — João 3:6
Duas ordens de existência. A carne produz carne — esforço humano gera mais esforço humano. Mas só o Espírito pode produzir vida espiritual. A transformação que Jesus exige não vem de baixo. Vem do alto.
"Não se surpreenda pelo fato de eu ter dito: É necessário que vocês nasçam de novo." — João 3:7
"É necessário" — dei. Não é opcional. Não é para alguns. É necessidade universal. Todos precisam nascer de novo. Fariseus e pecadores. Mestres e ignorantes. Nicodemos e a mulher samaritana.
Jesus usou uma imagem.
"O vento sopra onde quer. Você o ouve, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito." — João 3:8
Em grego e hebraico, a mesma palavra significa "vento" e "espírito" — pneuma em grego, ruach em hebraico. O trocadilho é intencional.
O vento é invisível, mas real. Você não controla de onde vem nem para onde vai — mas sente seus efeitos. Assim é o Espírito. Você não manipula o novo nascimento. Não o programa. Não o conquista por esforço. Ele sopra onde quer.
Nicodemos estava acostumado a controlar sua vida religiosa. Estudava. Obedecia. Acumulava mérito. Mas o Espírito não se deixa controlar. Ele sopra — e você responde.
Perguntou Nicodemos: "Como pode ser isso?" — João 3:9
A pergunta de quem está perdido. O sistema inteiro de Nicodemos estava sendo desmontado.
"Você é mestre em Israel e não entende essas coisas?" — João 3:10
Não era zombaria. Era espanto genuíno. Um mestre em Israel — alguém que conhecia os profetas, que lia Ezequiel — deveria reconhecer o que Jesus descrevia. A nova aliança. O coração novo. O Espírito prometido.
Mas o conhecimento teórico não tinha virado experiência pessoal.
"Digo a verdade: Nós falamos do que conhecemos e testemunhamos o que vimos, mas mesmo assim vocês não aceitam o nosso testemunho." — João 3:11
Jesus falava do que conhecia. Não repetia tradições. Não especulava. Testemunhava o que viu — porque veio do céu.
"Eu lhes falei de coisas terrenas e vocês não creram; como crerão se lhes falar de coisas celestiais?" — João 3:12
O novo nascimento era "coisa terrena" — algo que acontece aqui, em pessoas de carne e osso. Se Nicodemos não entendia isso, como entenderia os mistérios mais profundos?
"Ninguém jamais subiu ao céu, a não ser aquele que veio do céu: o Filho do homem." — João 3:13
Uma afirmação extraordinária. Jesus veio do céu. Não como profeta que recebe mensagens — como alguém que habitava lá e desceu. Ele conhece as coisas celestiais porque é de lá.
E então veio a tipologia mais surpreendente.
"Da mesma forma como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do homem seja levantado, para que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna." — João 3:14-15
A serpente no deserto. Números 21.
Israel murmurava contra Deus. Serpentes venenosas atacaram o acampamento. Pessoas morriam. O povo clamou. E Deus deu uma solução estranha: Moisés deveria fazer uma serpente de bronze e colocá-la num poste. Quem fosse mordido e olhasse para ela viveria.
Parecia contraditório. A serpente era o problema — como podia ser a solução? Mas funcionou. Quem olhava, vivia. Não por magia. Por obediência. Por fé no que Deus disse.
Jesus se comparava àquela serpente.
Ele seria "levantado" — na cruz. E assim como israelitas mordidos olhavam para a serpente e viviam, pecadores mordidos pela morte olhariam para o crucificado e teriam vida eterna.
A serpente de bronze era feita "à semelhança" das serpentes venenosas. Jesus viria "em semelhança da carne pecaminosa" (Romanos 8:3). O problema se tornava a solução. A maldição se tornava bênção.
E então veio o verso mais famoso da Bíblia.
"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna." — João 3:16
Cada palavra carrega peso.
"Deus amou" — o amor é a origem. Não fomos nós que buscamos Deus. Ele nos amou primeiro.
"O mundo" — não apenas Israel. O mundo inteiro. A humanidade caída. Os que estavam em trevas.
"De tal maneira" — houtōs. A intensidade do amor se mede pelo que foi dado.
"Que deu" — não emprestou. Deu. Entregou. Sacrificou.
"O seu Filho Unigênito" — monogenēs. Único. Não havia outro. Era tudo o que o Pai tinha de mais precioso.
"Para que todo aquele que nele crer" — a condição é fé. Não mérito. Não nascimento. Fé.
"Não pereça" — a alternativa real. Sem Cristo, a destruição é certa.
"Mas tenha a vida eterna" — não apenas sobrevivência. Vida. A vida de Deus. Para sempre.
"Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele." — João 3:17
A primeira vinda não era para juízo. Era para resgate. O juiz veio como salvador. O rei veio como servo. A condenação que merecíamos foi absorvida por ele.
"Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no nome do Filho Unigênito de Deus." — João 3:18
A divisão é simples. Quem crê, escapa. Quem não crê, já está condenado — não por um ato futuro de Deus, mas pela própria recusa de aceitar a luz.
"Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram as trevas, e não a luz, porque as suas obras eram más." — João 3:19
O julgamento não é arbitrário. É escolha. A luz veio. Alguns a amaram. Outros preferiram as trevas — porque as trevas escondem o que a luz expõe.
"Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, temendo que as suas obras sejam manifestas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se veja claramente que as suas obras são realizadas por intermédio de Deus." — João 3:20-21
Duas respostas à luz. Fugir — porque a luz expõe. Ou vir — porque a luz liberta.
Nicodemos veio de noite. Mas ele veio. E anos depois, quando Jesus foi crucificado, Nicodemos apareceu de novo — desta vez à luz do dia, ajudando José de Arimateia a sepultar o corpo (João 19:39).
O homem que veio nas trevas terminou caminhando na luz.
Conexões
- Homo Divinus Restaurado — "Nascer de novo" é tornar-se novamente o que Adão era: ser humano com sopro divino, capaz de comunhão plena com Deus. O novo nascimento restaura o que a Queda corrompeu.
- Prefiguração (AT) — Ezequiel 36:26-27: "Darei a vocês um coração novo... porei em vocês o meu Espírito." Números 21:8-9: a serpente de bronze levantada — quem olhava, vivia.
- Cumprimento (NT) — João 3:14-15: "Assim como Moisés levantou a serpente... é necessário que o Filho do Homem seja levantado." Tito 3:5: "Ele nos salvou pelo lavar regenerador... do Espírito Santo."
- Paralelo — Nicodemos veio de noite, nas trevas. Terminou à luz do dia, sepultando o corpo de Jesus (João 19:39). Da dúvida à devoção.