Capítulo III
O Início do Ministério
Parte VIII — O Último Testemunho de João
Parte VIII: O Último Testemunho de João
Enquanto Jesus conversava com Nicodemos em Jerusalém, João Batista continuava seu trabalho.
Depois disso Jesus foi com os seus discípulos para a terra da Judeia, onde passou algum tempo com eles e batizava. — João 3:22
Jesus deixou Jerusalém e foi para a zona rural da Judeia. Ali, ele e seus discípulos batizavam — João esclarecerá depois que era os discípulos quem batizavam, não Jesus pessoalmente (João 4:2). Mas o ministério estava em expansão.
João também estava batizando em Enom, perto de Salim, porque havia muita água ali, e o povo vinha para ser batizado. — João 3:23
Dois ministérios paralelos. Jesus batizando. João batizando. Por um breve momento, os dois operavam simultaneamente — o precursor e aquele que ele anunciou, lado a lado na mesma região.
Isso foi antes de João ser preso. — João 3:24
Uma nota ominosa. João escrevia décadas depois, sabendo o que aconteceria. A prisão de João estava chegando. A execução viria depois. Mas por enquanto, ele ainda era livre, ainda batizava, ainda apontava para Jesus.
E então surgiu uma disputa.
Surgiu uma discussão entre os discípulos de João e um judeu a respeito de purificação cerimonial. — João 3:25
O tema era purificação — provavelmente qual batismo era mais eficaz, o de João ou o de Jesus. A discussão esquentou. E os discípulos de João ficaram perturbados.
Eles foram a João e lhe disseram: "Rabi, aquele homem que estava contigo no outro lado do Jordão, do qual tu deste testemunho, está batizando, e todos estão se dirigindo a ele." — João 3:26
"Aquele homem." Não usaram o nome de Jesus. "Aquele homem que estava contigo" — como se fosse apenas um seguidor de João que agora o ultrapassava.
"Todos estão se dirigindo a ele." O ciúme era evidente. As multidões estavam migrando. O movimento de João estava diminuindo. O discípulo parecia superar o mestre.
Os discípulos de João esperavam que ele ficasse indignado. Ou pelo menos preocupado.
A resposta os surpreendeu.
Respondeu João: "O homem não pode receber coisa alguma, a não ser que esta lhe seja dada do céu." — João 3:27
Tradução: vocês estão preocupados com o sucesso dele? Esse sucesso veio do céu. Deus está fazendo isso. Quem sou eu para reclamar do que Deus faz?
João não tinha ilusões sobre si mesmo. Nunca teve.
"Vocês mesmos são testemunhas de que eu disse: Eu não sou o Cristo, mas sou aquele que foi enviado à frente dele." — João 3:28
"Eu não sou o Cristo." João já tinha dito isso antes, quando os líderes de Jerusalém perguntaram quem ele era. Não era o Messias. Não era Elias redivivo. Não era o Profeta. Era apenas a voz.
O trabalho de João era preparar, anunciar, apontar. E agora que o anunciado tinha chegado, o trabalho estava quase completo.
João usou uma imagem de casamento.
"A noiva pertence ao noivo. O amigo do noivo, que a seu lado espera e o ouve, alegra-se muito com a voz do noivo. Esta é a minha alegria, que agora se completa." — João 3:29
No casamento judaico, o "amigo do noivo" — o shoshbin — tinha papel crucial. Organizava a festa. Conduzia a noiva. Preparava tudo. Mas quando o noivo chegava, o amigo se afastava. Seu trabalho estava feito. Sua alegria era ver o noivo com a noiva.
João era o amigo. Jesus era o noivo. Israel — o povo de Deus — era a noiva.
O Antigo Testamento está cheio dessa imagem. Deus como marido de Israel. "Porque o teu Criador é o teu marido" (Isaías 54:5). "Desposar-te-ei comigo para sempre" (Oséias 2:19).
E agora o noivo celestial tinha chegado. João ouvia sua voz — e se alegrava. Não havia ciúme. Não havia competição. Apenas alegria de ver o plano se cumprindo.
E então veio a frase que define todo o ministério de João.
"É necessário que ele cresça e que eu diminua." — João 3:30
Oito palavras. O resumo de uma vida.
"É necessário" — dei. A mesma palavra que Jesus usou com Nicodemos: "É necessário nascer de novo." Não era preferência de João. Era necessidade divina. O plano de Deus exigia isso.
"Ele cresça" — o ministério de Jesus se expandiria. As multidões aumentariam. O impacto cresceria. A glória se revelaria.
"Eu diminua" — João entraria nas sombras. Seria preso. Seria esquecido por muitos. Seria executado numa masmorra por um capricho de Herodias.
E João estava em paz com isso.
Quantos conseguem dizer o mesmo? Quantos líderes celebram quando são ultrapassados? Quantos ministérios aplaudem quando outros crescem às suas custas?
João entendia seu papel. Não era a estrela. Era o dedo apontando para ela. E quando a estrela brilha, o dedo pode recuar.
Os versículos finais são declarações cristológicas densas. Alguns estudiosos acham que são palavras de João Batista. Outros acham que são comentários do evangelista João. De qualquer forma, são verdade.
"Aquele que vem de cima está acima de todos; aquele que é da terra pertence à terra e fala como quem é da terra. Aquele que vem do céu está acima de todos." — João 3:31
Duas origens. Duas naturezas. João era "da terra" — profeta, sim, mas homem. Jesus vinha "de cima" — do céu, de junto do Pai. A diferença não era de grau, mas de natureza.
"Ele dá testemunho do que viu e ouviu, mas ninguém aceita o seu testemunho." — João 3:32
Jesus falava do que conhecia em primeira mão. Não repetia revelações de segunda mão. Via o Pai. Conhecia o céu. E mesmo assim, muitos rejeitavam.
"Aquele que o aceita atesta que Deus é verdadeiro." — João 3:33
Aceitar o testemunho de Jesus é atestar que Deus é verdadeiro. Rejeitar Jesus é chamar Deus de mentiroso. Não há posição neutra.
"Pois aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus, porque Deus não lhe dá o Espírito por medida." — João 3:34
Os profetas antigos recebiam o Espírito em porções — para tarefas específicas, em momentos específicos. O Espírito vinha e ia. Saul o perdeu. Sansão o perdeu.
Mas em Jesus, o Espírito não era dado "por medida". Não havia limite. Não havia parcialidade. A plenitude do Espírito habitava nele permanentemente.
"O Pai ama o Filho e entregou tudo nas suas mãos." — João 3:35
Tudo — não parte, tudo. Autoridade total, poder total, julgamento total. O Pai confiou ao Filho a administração de todas as coisas.
"Quem crê no Filho tem a vida eterna; já quem rejeita o Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele." — João 3:36
A divisão final. Crer ou rejeitar. Vida ou ira. Não há terceira opção. A neutralidade é rejeição disfarçada.
"A ira de Deus permanece" — não é ira futura apenas. É condição presente. Quem rejeita Jesus já está sob ira. A condenação não precisa esperar o julgamento final. Já começou.
Este foi o último testemunho registrado de João Batista.
Ele apareceu primeiro neste capítulo, pregando no deserto, batizando multidões, anunciando aquele que viria. Agora ele desaparece da narrativa — cedendo espaço, diminuindo, completando sua alegria ao ver o noivo com a noiva.
Em breve seria preso por Herodes Antipas. Depois, executado. Sua cabeça servida numa bandeja por causa de uma dança.
Mas antes de morrer, ele viu o que veio ver. O Cordeiro de Deus. O Filho que vem do céu. Aquele que batiza com o Espírito Santo.
E morreu sabendo que sua missão estava cumprida.
Conexões
- Transição Profética — "É necessário que Ele cresça e eu diminua." João encarna a humildade do precursor. Sua alegria está completa não no próprio sucesso, mas no sucesso daquele a quem aponta.
- Prefiguração (AT) — Isaías 40:3-5: a voz prepara o caminho, depois se cala. Oséias 2:19-20: Deus desposa seu povo — João é o amigo do noivo que apresenta a noiva.
- Cumprimento (NT) — João 3:30: "É necessário que ele cresça e eu diminua." Mateus 11:11: o maior nascido de mulher cede lugar ao menor no Reino.
- Paralelo — Elias foi arrebatado ao céu. João foi decapitado na terra. Ambos cumpriram a missão até o fim.