Patrick Nekel
Harmonia Dos Evangelhos

Capítulo III

O Início do Ministério

Parte IX — A Mulher de Samaria

Parte IX: A Mulher de Samaria

Jesus precisava passar por Samaria.

Quando o Senhor ficou sabendo que os fariseus tinham ouvido falar que ele estava fazendo e batizando mais discípulos do que João — embora não fosse Jesus quem batizava, mas os seus discípulos —, saiu da Judeia e voltou uma vez mais à Galileia. — João 4:1-3

Os fariseus estavam prestando atenção. O movimento de Jesus crescia mais que o de João. E isso significava problemas. Então Jesus decidiu sair da Judeia e ir para a Galileia.

Era-lhe necessário passar por Samaria. — João 4:4

"Era-lhe necessário" — edei. A mesma palavra usada para "é necessário que ele cresça" e "é necessário nascer de novo". Não era apenas geografia. Era destino divino.

A maioria dos judeus evitava Samaria. Preferiam o caminho mais longo, atravessando o Jordão e subindo pelo outro lado. Os samaritanos eram considerados impuros — descendentes de israelitas que se misturaram com povos pagãos após a conquista assíria. Tinham seu próprio templo no monte Gerizim. Seus próprios sacerdotes. Sua própria versão da Torá.

Judeus e samaritanos não se falavam.

Mas Jesus precisava passar por Samaria.

Assim, chegou a uma cidade de Samaria, chamada Sicar, perto das terras que Jacó dera a seu filho José. Havia ali o poço de Jacó. Jesus, cansado da viagem, sentou-se à beira do poço. Isto se deu por volta do meio-dia. — João 4:5-6

O poço de Jacó. Solo sagrado para samaritanos e judeus. Jacó havia comprado aquela terra (Gênesis 33:19). José foi sepultado ali (Josué 24:32). O patriarca havia cavado aquele poço com suas próprias mãos.

E agora, ao meio-dia — a hora mais quente — Jesus sentou-se à beira, cansado da viagem.

João nos mostra a humanidade real de Jesus. Ele se cansava. Tinha sede. Precisava de descanso. O Verbo que criou todas as coisas sentia o peso de um corpo mortal sob o sol do deserto.

Nisso veio uma mulher samaritana tirar água. Jesus disse:

"Dê-me um pouco de água." — João 4:7

Os discípulos tinham ido à cidade comprar comida. Jesus estava sozinho. E pediu água a uma mulher.

Isso era escandaloso em múltiplos níveis.

A mulher samaritana lhe perguntou: "Como o senhor, sendo judeu, pede a mim, uma samaritana, água para beber?" (Pois os judeus não se dão bem com os samaritanos.) — João 4:9

Primeiro: ele era judeu, ela samaritana. Inimigos étnicos. Segundo: ele era homem, ela mulher. Rabinos não conversavam com mulheres em público — nem com as próprias esposas. Terceiro: ela vinha ao poço ao meio-dia, sozinha. As mulheres normalmente vinham de manhã cedo, em grupos. Vir ao meio-dia sugeria que ela evitava as outras. Tinha razões para se esconder.

Jesus ignorou todas as barreiras.

"Se você conhecesse o dom de Deus e quem lhe está pedindo água, você lhe teria pedido e ele lhe teria dado água viva." — João 4:10

Inversão completa. Ela pensava que ele precisava dela. Na verdade, ela precisava dele. Ele não era mendigo — era doador. E o que ele dava era "água viva".

Disse a mulher: "O senhor não tem com que tirar água, e o poço é fundo. Onde pode conseguir essa água viva? Acaso o senhor é maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu, bem como seus filhos e seu gado?" — João 4:11-12

Ela entendia literalmente. Água corrente, de fonte — em contraste com água parada de cisterna. De onde você vai tirar essa água? E quem você pensa que é? Maior que Jacó?

A ironia é densa. Sim, ele era maior que Jacó. Infinitamente maior.

"Quem beber desta água terá sede outra vez, mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Pelo contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna." — João 4:13-14

A água do poço de Jacó matava a sede por algumas horas. A água que Jesus oferecia satisfazia para sempre. Não era substância externa — tornava-se fonte interior, jorrando continuamente.

A mulher lhe disse: "Senhor, dê-me dessa água, para que eu não tenha mais sede, nem precise voltar aqui para tirar água." — João 4:15

Ela ainda não entendia completamente. Pensava em conveniência — não precisar carregar cântaro todos os dias. Mas algo nela estava sendo atraído.

Jesus mudou de assunto. Ou pareceu mudar.

"Vá, chame o seu marido e volte." — João 4:16

"Não tenho marido", respondeu ela.

"Você falou corretamente, dizendo que não tem marido. O fato é que você já teve cinco maridos, e o homem com quem agora vive não é seu marido. O que você disse é verdade." — João 4:17-18

Cinco maridos, e agora vivia com um homem sem casamento. Era por isso que ela vinha ao poço ao meio-dia, sozinha. Era por isso que evitava as outras mulheres — vergonha, rejeição, solidão.

Jesus sabia tudo. Sem que ela contasse. Sem investigação. Ele simplesmente sabia.

A reação dela foi desviar.

Disse a mulher: "Senhor, vejo que o senhor é profeta. Nossos antepassados adoraram neste monte, mas vocês, judeus, dizem que Jerusalém é o lugar onde se deve adorar." — João 4:19-20

Clássica manobra. Quando a conversa fica pessoal demais, mude para teologia abstrata. Qual é o lugar certo de adoração? Gerizim ou Jerusalém? Vamos debater isso em vez de falar sobre minha vida.

Mas Jesus não deixou a pergunta morrer. Respondeu — e a resposta foi revolucionária.

"Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém." — João 4:21

Nem Gerizim nem Jerusalém. A disputa de séculos estava prestes a se tornar irrelevante. Algo maior estava chegando.

"Vocês, samaritanos, adoram o que não conhecem; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus." — João 4:22

Jesus não era relativista. Havia diferença entre a adoração judaica e a samaritana. Os judeus tinham a revelação completa. A salvação viria deles — viria dele, um judeu.

Mas isso não significava que Jerusalém seria o centro para sempre.

"No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o Pai procura." — João 4:23

"Está chegando a hora, e de fato já chegou." Presente e futuro se fundem. O novo tempo estava inaugurado naquela conversa, naquele poço, com aquela mulher.

A adoração verdadeira não dependeria de geografia. Não seria questão de Gerizim ou Jerusalém. Seria "em espírito" — pela obra do Espírito Santo, no íntimo do ser. E "em verdade" — em conformidade com a revelação verdadeira, centrada em Jesus.

"Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade." — João 4:24

Deus não está confinado em templos. Não precisa de montes sagrados. Ele é espírito — e encontra adoradores em qualquer lugar onde haja coração sincero e verdade recebida.

A mulher fez uma confissão.

Disse a mulher: "Eu sei que o Messias (chamado Cristo) está para vir. Quando ele vier, explicará tudo para nós." — João 4:25

Ela esperava o Messias. Mesmo como samaritana, com sua versão truncada das Escrituras, ela sabia que alguém viria — aquele que explicaria tudo.

E então veio a revelação mais direta dos Evangelhos.

"Eu sou, eu que estou falando com você." — João 4:26

Egō eimi. A mesma expressão que Deus usou com Moisés na sarça ardente. O nome divino. E Jesus o aplicou a si mesmo.

Para os judeus em Jerusalém, Jesus usava parábolas, metáforas, declarações veladas. Para uma mulher samaritana à beira de um poço, ele disse sem rodeios: Eu sou o Messias.

A revelação mais clara veio para a pessoa mais improvável.

Os discípulos voltaram.

Naquele momento os seus discípulos voltaram e ficaram surpresos ao encontrá-lo conversando com uma mulher. Mas ninguém perguntou: "Que queres?" ou "Por que estás conversando com ela?" — João 4:27

Estavam surpresos — mas não perguntaram. Algo os intimidava. A autoridade de Jesus era grande demais para questionamentos.

Então, deixando o seu cântaro, a mulher voltou à cidade e disse ao povo: "Venham ver um homem que me disse tudo o que tenho feito. Será que ele não é o Cristo?" — João 4:28-29

Ela deixou o cântaro. Tinha vindo buscar água — agora tinha algo melhor. Correu à cidade. A mulher que evitava as pessoas agora as buscava. A que tinha vergonha agora proclamava.

"Ele me disse tudo o que tenho feito." Não era acusação — era libertação. Ser conhecida completamente e ainda assim recebida. Isso transformava.

Saíram da cidade e foram para onde ele estava. — João 4:30

A cidade inteira foi.

Os discípulos insistiam para que Jesus comesse.

Os discípulos insistiam: "Rabi, come alguma coisa."

"Tenho algo para comer que vocês não conhecem." — João 4:32

Os discípulos disseram uns aos outros: "Será que alguém lhe trouxe comida?"

"A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e concluir a sua obra." — João 4:34

Jesus vivia de outra coisa. A conversa com aquela mulher o alimentava mais que pão. Cumprir a vontade do Pai era sua nutrição.

"Vocês não dizem: 'Daqui a quatro meses haverá a colheita'? Eu digo: Abram os olhos e vejam os campos! Eles estão maduros para a colheita." — João 4:35

Olhem ao redor. Os samaritanos estavam vindo — uma multidão caminhando pelos campos em direção ao poço. A colheita não era futura. Era agora.

Muitos samaritanos daquela cidade creram nele por causa do seguinte testemunho dado pela mulher: "Ele me disse tudo o que tenho feito." — João 4:39

O testemunho de uma mulher com passado escandaloso converteu uma cidade.

Quando se aproximaram dele, os samaritanos insistiram em que ficasse com eles. Então ficou ali dois dias. — João 4:40

Jesus ficou. Dois dias entre samaritanos. Comendo com eles. Dormindo entre eles. Ensinando-os.

Tudo que um judeu "respeitável" jamais faria.

E por causa da sua palavra, muitos outros creram. — João 4:41

A fé que começou pelo testemunho da mulher se aprofundou pelo ensino direto de Jesus.

E disseram à mulher: "Já não é pela tua palavra que cremos; nós mesmos o ouvimos e sabemos que este é realmente o Salvador do mundo." — João 4:42

"Salvador do mundo" — sōtēr tou kosmou. Não apenas de Israel. Do mundo. Samaritanos — os rejeitados, os impuros, os hereges — foram os primeiros a dar a Jesus esse título universal.

O evangelho atravessou fronteiras desde o início.

Conexões

  • Reconexão à Fonte — A água viva representa a reconexão à sustentação divina (Teísmo Contínuo). Quem bebe da fonte temporal (cisternas rotas) continua sedento. Quem bebe de Cristo tem "fonte que jorra para a vida eterna."
  • Prefiguração (AT) — Jeremias 2:13: "Abandonaram a mim, fonte de água viva, e cavaram cisternas rotas." Gênesis 29: Jacó encontra Raquel no poço — padrão de noivado.
  • Cumprimento (NT) — João 7:37-39: "Se alguém tem sede, venha a mim e beba." João 4:42: samaritanos declaram Jesus "Salvador do mundo" — não apenas de Israel.
  • Paralelo/Contraste — A mulher tinha cinco maridos e vivia com outro. Jesus oferece o sétimo relacionamento — o definitivo, o verdadeiro Noivo.