Capítulo III
O Início do Ministério
Parte X — O Segundo Sinal em Caná
Parte X: O Segundo Sinal em Caná
Depois de dois dias em Samaria, Jesus continuou para a Galileia.
Passados os dois dias, ele saiu dali para a Galileia. O próprio Jesus tinha declarado que nenhum profeta é honrado em sua própria terra. — João 4:43-44
"Nenhum profeta é honrado em sua própria terra." A frase é enigmática no contexto. A Galileia era sua terra — mas Nazaré o rejeitaria (Lucas 4:24-30). A Judeia, terra dos líderes religiosos, também não o honrava. E Samaria, terra estrangeira, o chamou de "Salvador do mundo".
Quando chegou à Galileia, os galileus o receberam bem. Eles tinham visto tudo o que ele fizera em Jerusalém, por ocasião da festa da Páscoa, pois também tinham ido à festa. — João 4:45
Os galileus que foram à Páscoa viram Jesus purificando o templo. Viram os sinais que ele fez. E agora o recebiam com entusiasmo.
Mas Jesus sabia — e já tinha dito a Nicodemos — que fé baseada apenas em sinais era rasa.
Uma vez mais, ele visitou Caná da Galileia, onde tinha transformado água em vinho. — João 4:46
Caná. O lugar do primeiro sinal. Jesus voltava ao ponto de partida. Um círculo estava se fechando.
E havia ali certo oficial do rei, cujo filho estava doente em Cafarnaum. — João 4:46
"Oficial do rei" — basilikos. Provavelmente um funcionário de Herodes Antipas, que governava a Galileia com título de tetrarca, mas era chamado popularmente de rei. O homem podia ser judeu a serviço de Herodes ou gentio. O texto não esclarece — e talvez isso seja intencional.
Seu filho estava doente. Em Cafarnaum, a cerca de 25 quilômetros de distância. E a doença era grave.
Quando esse homem soube que Jesus tinha chegado à Galileia, vindo da Judeia, foi ao seu encontro e lhe suplicou que fosse curar o seu filho, que estava à beira da morte. — João 4:47
O oficial fez a viagem. Subiu de Cafarnaum a Caná. E suplicou. Um homem de posição, acostumado a dar ordens, agora implorava.
"À beira da morte." A urgência era extrema. Cada hora contava.
A resposta de Jesus foi surpreendente.
"Se vocês não virem sinais e maravilhas, não crerão de modo nenhum." — João 4:48
Parecia repreensão. E era — mas não dirigida apenas ao oficial. Jesus usou o plural: "vocês". Falava aos galileus em geral, que só criam quando viam espetáculo.
A fé que depende de sinais constantes é fé imatura. É fé que precisa ser alimentada por milagres para sobreviver. Jesus queria algo mais profundo.
Mas o oficial não se deixou desviar.
O oficial do rei disse: "Senhor, vem, antes que o meu filho morra." — João 4:49
Não entrou em debate teológico. Não se ofendeu com a repreensão. Apenas voltou ao essencial: meu filho está morrendo. Vem logo.
Havia fé ali — mesmo que misturada com desespero. Fé suficiente para fazer a viagem. Fé suficiente para suplicar. Fé suficiente para insistir.
"Pode ir. O seu filho vai viver." — João 4:50
Nenhuma viagem a Cafarnaum. Nenhum toque. Nenhum ritual. Apenas palavras: "Pode ir. O seu filho vai viver."
Era um teste. Jesus curava de muitas formas. Às vezes tocava. Às vezes cuspia no chão e fazia lodo. Às vezes mandava ir ao tanque. Às vezes falava à distância.
Aqui, ele apenas disse. E esperou que o homem acreditasse na palavra sem ver o resultado.
O homem creu na palavra de Jesus e partiu. — João 4:50
Ele creu. Não pediu confirmação. Não exigiu que Jesus viesse pessoalmente. Ouviu a palavra — e foi embora acreditando que seria verdade.
Isso era fé madura. Fé que não precisa ver para crer. Fé que aceita a palavra antes do resultado.
Quando ele ainda estava a caminho, seus servos vieram ao seu encontro com notícias de que o menino estava vivo. — João 4:51
A cura aconteceu. O menino que estava morrendo agora vivia. E os servos correram para encontrar o pai no caminho.
Ele perguntou a que horas o menino havia melhorado, e eles lhe responderam: "A febre o deixou ontem, à uma hora da tarde." — João 4:52
O pai fez a conta. A uma hora da tarde. Hora sétima, pelo relógio judaico.
Então o pai percebeu que aquela era a hora exata em que Jesus lhe dissera: "O seu filho vai viver". Assim, creram ele e toda a sua casa. — João 4:53
A hora batia. No exato momento em que Jesus pronunciou a palavra em Caná, a febre deixou o menino em Cafarnaum. Vinte e cinco quilômetros de distância. Sem demora. Sem transição.
A palavra de Jesus era eficaz. Não precisava de proximidade física. Atravessava espaço. Operava instantaneamente.
E a fé do oficial se aprofundou — e se espalhou. Toda a sua casa creu. O funcionário de Herodes tornou-se missionário em seu próprio lar.
João faz uma nota editorial.
Esse foi o segundo sinal miraculoso que Jesus realizou, depois de ter vindo da Judeia para a Galileia. — João 4:54
"O segundo sinal."
João está contando. O primeiro sinal foi em Caná — água transformada em vinho (João 2:11). O segundo também em Caná — a cura do filho do oficial.
Estudiosos notam que João parece estruturar seu Evangelho em torno de sete sinais:
- Água em vinho (Caná)
- Cura do filho do oficial (Caná)
- Cura do paralítico de Betesda (Jerusalém)
- Multiplicação dos pães (Galileia)
- Jesus caminha sobre a água (Mar da Galileia)
- Cura do cego de nascença (Jerusalém)
- Ressurreição de Lázaro (Betânia)
Sete sinais. Número da completude. Cada um revelando uma faceta da glória de Jesus.
E dois deles aconteceram em Caná. O primeiro e o segundo. Água em vinho e palavra que cura à distância. O capítulo que começou em Caná termina em Caná. Circularidade proposital.
O que esse sinal revela?
No primeiro sinal, Jesus transformou água em vinho — mostrando poder sobre a matéria, autoridade sobre a criação física.
No segundo sinal, Jesus curou à distância — mostrando que seu poder não tinha limitação geográfica. A palavra dele operava onde ele não estava presente fisicamente.
Isso apontava para o futuro. Depois da ascensão, Jesus não estaria mais fisicamente presente. Mas sua palavra continuaria operando. A fé que ouve e crê — sem ver — seria a norma.
"Porque você me viu, você creu? Bem-aventurados os que não viram e creram" — Jesus diria a Tomé depois da ressurreição (João 20:29).
O oficial de Herodes foi um dos primeiros a experimentar essa bem-aventurança — ouviu a palavra, creu, partiu sem ver. E encontrou o filho vivo.
O início do ministério estava completo.
Jesus foi batizado no Jordão. Enfrentou a tentação no deserto. Chamou os primeiros discípulos. Fez o primeiro sinal em Caná. Subiu a Jerusalém e purificou o templo. Conversou com Nicodemos de noite. Viu João Batista passar o bastão. Revelou-se à mulher de Samaria. E agora, de volta a Caná, fez o segundo sinal.
A jornada estava apenas começando. A Galileia o esperava. Multidões seriam ensinadas. Demônios seriam expulsos. Paralíticos andariam. Cegos veriam. O Reino seria proclamado em aldeias e sinagogas.
Mas antes de tudo isso, havia esse fundamento: a palavra de Jesus é confiável. Ela opera mesmo quando não vemos. Ela cura à distância. Ela transforma o impossível.
"Pode ir. O seu filho vai viver."
E viveu.
Fim do Capítulo 3: O Início do Ministério
Conexões
- Fé à Distância — O oficial creu na palavra de Jesus sem ver o milagre. A fé não exige presença física — exige confiança na autoridade de quem fala. "Pode ir. O seu filho vai viver." E ele foi.
- Prefiguração (AT) — 2 Reis 5:10-14: Naamã é curado à distância ao obedecer a palavra de Eliseu. A obediência precede a cura.
- Cumprimento (NT) — João 4:50: "O homem creu na palavra de Jesus e partiu." João 20:29: "Bem-aventurados os que não viram e creram."
- Paralelo — Primeiro sinal em Caná: água em vinho (abundância). Segundo sinal: filho curado (vida). Ambos revelam autoridade sobre matéria e morte.