Capítulo IV
O Ministério na Galileia
Parte I — A Rejeição em Nazaré
Parte I: A Rejeição em Nazaré
Foi a Nazaré, onde havia sido criado. No sábado entrou na sinagoga. Levantou-se para ler e lhe foi entregue o livro de Isaías. Disse: "Hoje se cumpriu a Escritura que vocês acabaram de ouvir."
Chegando à sua terra, ensinava na sinagoga. Admirados, perguntavam: "De onde lhe vêm esta sabedoria e estes poderes? Não é este o filho do carpinteiro?" E se escandalizavam por causa dele.
Saiu dali e foi para a sua terra, e os seus discípulos o seguiram. Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Ficou admirado com a incredulidade deles.
Jesus voltou para a Galileia.
Depois do batismo, da tentação, dos primeiros discípulos, de Caná, de Jerusalém, de Nicodemos, da Samaria — Jesus retornou ao lugar onde cresceu. Não como o filho do carpinteiro de antes. Agora vinha "no poder do Espírito". A fama o precedia.
Ensinava nas sinagogas e todos o elogiavam. Por enquanto.
Ele foi a Nazaré, onde havia sido criado, e no dia de sábado entrou na sinagoga, como era seu costume. E levantou-se para ler. — Lucas 4:16
Nazaré. A vila onde passou trinta anos. Onde aprendeu a andar, a falar, a trabalhar madeira. Onde todos conheciam sua mãe, seus irmãos, suas irmãs. Onde ninguém esperava nada extraordinário dele.
Era sábado. Jesus foi à sinagoga — "como era seu costume". Trinta anos de sábados naquela mesma sinagoga. Mas este seria diferente.
Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías. Abriu-o e encontrou o lugar onde está escrito:
"O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas-novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor." — Lucas 4:17-19
Isaías 61:1-2. Uma das passagens messiânicas mais claras do Antigo Testamento. O profeta descrevia alguém ungido pelo Espírito para uma missão específica: boas-novas aos pobres, liberdade aos presos, vista aos cegos, libertação aos oprimidos.
E havia mais no texto original. Isaías continuava: "...e o dia da vingança do nosso Deus". Mas Jesus parou antes. Fechou o livro no meio da frase.
Por quê?
Porque a primeira vinda era para graça. O dia da vingança viria depois.
Então, ele fechou o livro, devolveu-o ao assistente e assentou-se. Na sinagoga todos tinham os olhos fitos nele. — Lucas 4:20
A sinagoga ficou em silêncio. Todo mundo olhando, esperando pra ver o que ele diria.
Na tradição judaica, o pregador sentava para ensinar. Jesus fechou o livro e sentou. O que viria agora?
E ele começou a dizer-lhes: "Hoje se cumpriu a Escritura que vocês acabaram de ouvir." — Lucas 4:21
"Hoje se cumpriu a Escritura que vocês acabaram de ouvir." — Lucas 4:21
Oito palavras. A declaração messiânica mais direta que ele já tinha feito.
Não disse "um dia isso se cumprirá". Não disse "Isaías falava de alguém que virá". Disse: hoje. Aqui. Em mim. Vocês estão olhando para o cumprimento da profecia.
O ungido do Senhor estava de pé na sinagoga de Nazaré — e a maioria não reconheceu.
A reação inicial foi positiva.
Todos falavam bem dele, e estavam admirados com as palavras cheias de graça que saíam de seus lábios. Mas perguntavam: "Não é este o filho de José?" — Lucas 4:22
Admiração, elogios, palavras cheias de graça — mas no meio da admiração, a dúvida: "Não é este o filho de José?"
Conhecemos esse homem. Vimos ele crescer. Brincamos com ele quando éramos crianças. Trabalhamos com o pai dele. Como pode ser o Messias?
Jesus sabia o que pensavam. E respondeu antes que perguntassem.
"Sem dúvida vocês me citarão este provérbio: 'Médico, cura-te a ti mesmo! Faze aqui, na tua terra, tudo o que ouvimos que fizeste em Cafarnaum.'" — Lucas 4:23
Eles queriam um show. Prove-se. Faça aqui o que fez lá. Se você é mesmo o Messias, demonstre para a sua própria gente.
"Eu asseguro que nenhum profeta é aceito em sua própria terra." — Lucas 4:24
Uma verdade que doía. Os mais próximos são os mais cegos. A familiaridade gera desprezo. Quem viu Jesus carregando madeira na oficina de José tinha dificuldade de vê-lo carregando a salvação do mundo.
E então Jesus fez algo provocador. Citou dois exemplos do Antigo Testamento que enfureceriam seus ouvintes.
"Posso garantir que havia muitas viúvas em Israel no tempo de Elias, quando o céu foi fechado por três anos e meio, e houve uma grande fome em toda a terra. Contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta, na região de Sidom." — Lucas 4:25-26
Sarepta. Território gentio. Elias — o maior profeta de Israel — foi enviado não a uma viúva israelita, mas a uma estrangeira. Deus ignorou as viúvas de Israel e cuidou de uma pagã.
"Também havia muitos leprosos em Israel no tempo do profeta Eliseu. Todavia, nenhum deles foi purificado — somente Naamã, o sírio." — Lucas 4:27
Naamã. General do exército da Síria — inimigo de Israel. Eliseu curou o leproso estrangeiro enquanto leprosos israelitas permaneciam doentes.
A mensagem era clara: Deus não está limitado a Israel. Quando Israel rejeita, Deus vai aos gentios. E Nazaré estava prestes a rejeitar.
A reação foi violenta.
Todos os que estavam na sinagoga ficaram furiosos quando ouviram isso. Levantaram-se, expulsaram-no da cidade e o levaram até ao topo da colina sobre a qual fora construída a cidade, a fim de atirá-lo precipício abaixo. — Lucas 4:28-29
De elogios a tentativa de assassinato em minutos.
Os conterrâneos de Jesus — pessoas que o conheciam desde criança — tentaram jogá-lo de um precipício. A primeira tentativa de matá-lo não veio dos romanos, nem dos fariseus de Jerusalém. Veio de Nazaré. Da sua própria terra.
Mas Jesus passou por entre eles e foi embora. — Lucas 4:30
Uma frase misteriosa. Como ele passou? O texto não explica. Talvez tenha caminhado calmamente enquanto a multidão se confundia. Talvez algo sobrenatural. Lucas não detalha.
O que sabemos: a hora de Jesus ainda não tinha chegado. Ele morreria — mas não ali, não assim, não ainda. A cruz esperava. Nazaré não tinha esse direito.
A rejeição em Nazaré foi um microcosmo do que viria.
"Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam." — João 1:11
Jesus veio primeiro para Israel. A maioria não o reconheceu. Então a mensagem foi aos gentios — como Elias indo a Sarepta, como Eliseu curando Naamã.
Nazaré rejeitou. Mas Cafarnaum esperava. E lá, as coisas seriam diferentes.
Por enquanto.
Conexões
- Profeta Sem Honra — O padrão bíblico se repete: quem conhece o mensageiro desde criança resiste à mensagem. Familiaridade gera desprezo. Jesus cita Elias e Eliseu — profetas que abençoaram gentios porque Israel os rejeitou.
- Prefiguração (AT) — 1 Reis 17:8-24: Elias vai à viúva de Sarepta (gentil). 2 Reis 5:1-14: Eliseu cura Naamã, o sírio (gentil). Jeremias 11:21: homens de Anatote ameaçam matar Jeremias.
- Cumprimento (NT) — João 1:11: "Veio para os seus, os seus não o receberam." Hebreus 13:12-13: Jesus sofreu "fora da porta."
- Paralelo — Nazaré tenta matar Jesus empurrando-o do penhasco. Anos depois, Jerusalém conseguirá matá-lo fora dos muros.