Patrick Nekel
Harmonia Dos Evangelhos

Capítulo IV

O Ministério na Galileia

Parte I — A Rejeição em Nazaré

Parte I: A Rejeição em Nazaré

Lucas 4:16-30

Foi a Nazaré, onde havia sido criado. No sábado entrou na sinagoga. Levantou-se para ler e lhe foi entregue o livro de Isaías. Disse: "Hoje se cumpriu a Escritura que vocês acabaram de ouvir."

Mateus 13:53-58

Chegando à sua terra, ensinava na sinagoga. Admirados, perguntavam: "De onde lhe vêm esta sabedoria e estes poderes? Não é este o filho do carpinteiro?" E se escandalizavam por causa dele.

Marcos 6:1-6

Saiu dali e foi para a sua terra, e os seus discípulos o seguiram. Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Ficou admirado com a incredulidade deles.

Jesus voltou para a Galileia.

Depois do batismo, da tentação, dos primeiros discípulos, de Caná, de Jerusalém, de Nicodemos, da Samaria — Jesus retornou ao lugar onde cresceu. Não como o filho do carpinteiro de antes. Agora vinha "no poder do Espírito". A fama o precedia.

Ensinava nas sinagogas e todos o elogiavam. Por enquanto.

Ele foi a Nazaré, onde havia sido criado, e no dia de sábado entrou na sinagoga, como era seu costume. E levantou-se para ler. — Lucas 4:16

Nazaré. A vila onde passou trinta anos. Onde aprendeu a andar, a falar, a trabalhar madeira. Onde todos conheciam sua mãe, seus irmãos, suas irmãs. Onde ninguém esperava nada extraordinário dele.

Era sábado. Jesus foi à sinagoga — "como era seu costume". Trinta anos de sábados naquela mesma sinagoga. Mas este seria diferente.

Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías. Abriu-o e encontrou o lugar onde está escrito:

"O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas-novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor." — Lucas 4:17-19

Isaías 61:1-2. Uma das passagens messiânicas mais claras do Antigo Testamento. O profeta descrevia alguém ungido pelo Espírito para uma missão específica: boas-novas aos pobres, liberdade aos presos, vista aos cegos, libertação aos oprimidos.

E havia mais no texto original. Isaías continuava: "...e o dia da vingança do nosso Deus". Mas Jesus parou antes. Fechou o livro no meio da frase.

Por quê?

Porque a primeira vinda era para graça. O dia da vingança viria depois.

Então, ele fechou o livro, devolveu-o ao assistente e assentou-se. Na sinagoga todos tinham os olhos fitos nele. — Lucas 4:20

A sinagoga ficou em silêncio. Todo mundo olhando, esperando pra ver o que ele diria.

Na tradição judaica, o pregador sentava para ensinar. Jesus fechou o livro e sentou. O que viria agora?

E ele começou a dizer-lhes: "Hoje se cumpriu a Escritura que vocês acabaram de ouvir." — Lucas 4:21

"Hoje se cumpriu a Escritura que vocês acabaram de ouvir." — Lucas 4:21

Oito palavras. A declaração messiânica mais direta que ele já tinha feito.

Não disse "um dia isso se cumprirá". Não disse "Isaías falava de alguém que virá". Disse: hoje. Aqui. Em mim. Vocês estão olhando para o cumprimento da profecia.

O ungido do Senhor estava de pé na sinagoga de Nazaré — e a maioria não reconheceu.

A reação inicial foi positiva.

Todos falavam bem dele, e estavam admirados com as palavras cheias de graça que saíam de seus lábios. Mas perguntavam: "Não é este o filho de José?" — Lucas 4:22

Admiração, elogios, palavras cheias de graça — mas no meio da admiração, a dúvida: "Não é este o filho de José?"

Conhecemos esse homem. Vimos ele crescer. Brincamos com ele quando éramos crianças. Trabalhamos com o pai dele. Como pode ser o Messias?

Jesus sabia o que pensavam. E respondeu antes que perguntassem.

"Sem dúvida vocês me citarão este provérbio: 'Médico, cura-te a ti mesmo! Faze aqui, na tua terra, tudo o que ouvimos que fizeste em Cafarnaum.'" — Lucas 4:23

Eles queriam um show. Prove-se. Faça aqui o que fez lá. Se você é mesmo o Messias, demonstre para a sua própria gente.

"Eu asseguro que nenhum profeta é aceito em sua própria terra." — Lucas 4:24

Uma verdade que doía. Os mais próximos são os mais cegos. A familiaridade gera desprezo. Quem viu Jesus carregando madeira na oficina de José tinha dificuldade de vê-lo carregando a salvação do mundo.

E então Jesus fez algo provocador. Citou dois exemplos do Antigo Testamento que enfureceriam seus ouvintes.

"Posso garantir que havia muitas viúvas em Israel no tempo de Elias, quando o céu foi fechado por três anos e meio, e houve uma grande fome em toda a terra. Contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta, na região de Sidom." — Lucas 4:25-26

Sarepta. Território gentio. Elias — o maior profeta de Israel — foi enviado não a uma viúva israelita, mas a uma estrangeira. Deus ignorou as viúvas de Israel e cuidou de uma pagã.

"Também havia muitos leprosos em Israel no tempo do profeta Eliseu. Todavia, nenhum deles foi purificado — somente Naamã, o sírio." — Lucas 4:27

Naamã. General do exército da Síria — inimigo de Israel. Eliseu curou o leproso estrangeiro enquanto leprosos israelitas permaneciam doentes.

A mensagem era clara: Deus não está limitado a Israel. Quando Israel rejeita, Deus vai aos gentios. E Nazaré estava prestes a rejeitar.

A reação foi violenta.

Todos os que estavam na sinagoga ficaram furiosos quando ouviram isso. Levantaram-se, expulsaram-no da cidade e o levaram até ao topo da colina sobre a qual fora construída a cidade, a fim de atirá-lo precipício abaixo. — Lucas 4:28-29

De elogios a tentativa de assassinato em minutos.

Os conterrâneos de Jesus — pessoas que o conheciam desde criança — tentaram jogá-lo de um precipício. A primeira tentativa de matá-lo não veio dos romanos, nem dos fariseus de Jerusalém. Veio de Nazaré. Da sua própria terra.

Mas Jesus passou por entre eles e foi embora. — Lucas 4:30

Uma frase misteriosa. Como ele passou? O texto não explica. Talvez tenha caminhado calmamente enquanto a multidão se confundia. Talvez algo sobrenatural. Lucas não detalha.

O que sabemos: a hora de Jesus ainda não tinha chegado. Ele morreria — mas não ali, não assim, não ainda. A cruz esperava. Nazaré não tinha esse direito.

A rejeição em Nazaré foi um microcosmo do que viria.

"Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam." — João 1:11

Jesus veio primeiro para Israel. A maioria não o reconheceu. Então a mensagem foi aos gentios — como Elias indo a Sarepta, como Eliseu curando Naamã.

Nazaré rejeitou. Mas Cafarnaum esperava. E lá, as coisas seriam diferentes.

Por enquanto.

Conexões

  • Profeta Sem Honra — O padrão bíblico se repete: quem conhece o mensageiro desde criança resiste à mensagem. Familiaridade gera desprezo. Jesus cita Elias e Eliseu — profetas que abençoaram gentios porque Israel os rejeitou.
  • Prefiguração (AT) — 1 Reis 17:8-24: Elias vai à viúva de Sarepta (gentil). 2 Reis 5:1-14: Eliseu cura Naamã, o sírio (gentil). Jeremias 11:21: homens de Anatote ameaçam matar Jeremias.
  • Cumprimento (NT) — João 1:11: "Veio para os seus, os seus não o receberam." Hebreus 13:12-13: Jesus sofreu "fora da porta."
  • Paralelo — Nazaré tenta matar Jesus empurrando-o do penhasco. Anos depois, Jerusalém conseguirá matá-lo fora dos muros.