Patrick Nekel
Harmonia Dos Evangelhos

Capítulo V

Fé Além das Fronteiras

Parte III — A Pergunta de João

Parte III: A Pergunta de João

Mateus 11:2-6

Quando João ouviu na prisão o que Cristo estava fazendo, enviou seus discípulos para lhe perguntarem: "És tu aquele que haveria de vir ou devemos esperar outro?"

Lucas 7:18-23

Os discípulos de João contaram-lhe todas essas coisas. Chamando dois deles, enviou-os ao Senhor para perguntarem: "És tu aquele que haveria de vir ou devemos esperar outro?"

Enquanto isso, João estava na prisão.

Meses antes, ele havia batizado Jesus. Viu o céu abrir. Ouviu a voz do Pai. Testemunhou o Espírito descer como pomba. Declarou com certeza: "Eis o Cordeiro de Deus."

Agora estava numa cela em Maquero, fortaleza de Herodes nas margens do Mar Morto.

João tinha confrontado Herodes.

O tetrarca tinha tomado Herodias, mulher de seu irmão Filipe. João não se calou: "Não te é lícito possuí-la." E por essa declaração, foi preso.

O homem que viveu livre no deserto agora apodrecia entre paredes de pedra.

Os discípulos de João contaram-lhe todas essas coisas. — Lucas 7:18

Notícias chegavam. Jesus estava curando. Expulsando demônios. Ressuscitando mortos.

Mas não estava libertando João.

O Reino estava sendo inaugurado — e o precursor do Reino estava trancado.

Chamando dois deles, enviou-os ao Senhor para perguntarem: "És tu aquele que haveria de vir ou devemos esperar outro?" — Lucas 7:19

A pergunta.

Vinda de João. O mesmo João que disse: "Eu vi e testemunhei que este é o Filho de Deus." O mesmo João que recusou batizá-lo inicialmente: "Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?"

Agora: "És tu aquele ou devemos esperar outro?"

O que aconteceu?

Dúvida. Na escuridão de uma cela, até o maior profeta vacilou.

João esperava um Messias diferente. Tinha pregado fogo: "Ele traz a pá na mão e limpará sua eira, recolhendo o trigo no celeiro; mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga."

Fogo, juízo, separação imediata entre justos e ímpios.

E o que Jesus fazia? Jantava com pecadores. Curava gentios. Falava em parábolas. Nenhum fogo. Nenhum machado cortando árvores. Nenhuma libertação para João.

A prisão faz coisas com a mente.

O isolamento corrói certezas. O silêncio amplifica dúvidas. O tempo arrasta esperanças.

João não era fraco. Enfrentou a elite religiosa. Chamou fariseus de "raça de víboras". Confrontou um rei. Mas agora, sozinho, no escuro, a pergunta veio: "Errei?"

Os discípulos de João chegaram a Jesus.

Naquela mesma hora Jesus curou muitos que tinham doenças, enfermidades e espíritos malignos, e deu vista a muitos cegos. — Lucas 7:21

Jesus não respondeu imediatamente com palavras. Primeiro, demonstrou.

Curou. Ali, diante dos mensageiros de João. Para que vissem com os próprios olhos.

Então respondeu:

"Voltem e anunciem a João o que vocês viram e ouviram: os cegos veem, os aleijados andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e as boas novas são pregadas aos pobres." — Lucas 7:22

Não disse "sim" nem "não".

Apontou para as evidências. E cada evidência era uma profecia de Isaías:

  • Cegos veem — Isaías 35:5
  • Aleijados andam — Isaías 35:6
  • Leprosos purificados — Isaías 53:4
  • Surdos ouvem — Isaías 35:5
  • Mortos ressuscitam — Isaías 26:19
  • Boas novas aos pobres — Isaías 61:1

A resposta de Jesus: "Olhe para Isaías. O que o profeta disse que o Messias faria? Isso está acontecendo."

E então, uma advertência gentil:

"Bem-aventurado aquele que não se escandalizar de mim." — Lucas 7:23

Σκανδαλίζω — skandalízo. Tropeçar. Ser ofendido. Rejeitar por decepção.

Jesus sabia o problema de João. O Messias real não correspondia ao Messias imaginado.

João esperava juízo imediato — recebeu graça prolongada.

João esperava libertação — continuou preso.

João esperava fogo — viu festas com pecadores.

A tentação era rejeitar o Messias por não ser o que se esperava.

"Bem-aventurado" — makários em grego, que significa feliz, abençoado.

Feliz quem não tropeça. Quem aceita o Messias como ele é, não como se imaginou que seria.

A dúvida de João era humana.

Jesus não o repreendeu. Não disse: "Que vergonha, João. Você devia saber melhor." Respondeu com evidências. Tratou a dúvida com paciência.

A fé não é ausência de perguntas. É continuar mesmo quando as respostas não vêm do jeito esperado.

João perguntou: "És tu aquele?"

Jesus respondeu: "Olhe para as obras."

As obras falavam. Os cegos viam. Os mortos viviam. As boas novas chegavam aos pobres.

O Messias estava ali. Só não do jeito que João imaginou.

Aceitar o Deus real é mais difícil do que inventar um deus conveniente.

O Messias veio. Mas não veio do jeito certo. Não libertou João. Não queimou os ímpios. Não estabeleceu o Reino visível imediatamente.

Veio curar. Veio perdoar. Veio morrer.

João precisava confiar — mesmo sem entender.

Conexões

  • Isaías 35:5-6 — Profecia sobre cegos, surdos, coxos curados
  • Isaías 61:1 — "O Espírito do Senhor está sobre mim... para pregar boas novas aos pobres"
  • Malaquias 3:1 — "Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim"
  • Marcos 6:17-29 — A prisão e morte de João Batista
  • João 1:29-34 — O testemunho de João sobre Jesus
  • Hebreus 11:1 — "Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos"