Capítulo V
Fé Além das Fronteiras
Parte III — A Pergunta de João
Parte III: A Pergunta de João
Quando João ouviu na prisão o que Cristo estava fazendo, enviou seus discípulos para lhe perguntarem: "És tu aquele que haveria de vir ou devemos esperar outro?"
Os discípulos de João contaram-lhe todas essas coisas. Chamando dois deles, enviou-os ao Senhor para perguntarem: "És tu aquele que haveria de vir ou devemos esperar outro?"
Enquanto isso, João estava na prisão.
Meses antes, ele havia batizado Jesus. Viu o céu abrir. Ouviu a voz do Pai. Testemunhou o Espírito descer como pomba. Declarou com certeza: "Eis o Cordeiro de Deus."
Agora estava numa cela em Maquero, fortaleza de Herodes nas margens do Mar Morto.
João tinha confrontado Herodes.
O tetrarca tinha tomado Herodias, mulher de seu irmão Filipe. João não se calou: "Não te é lícito possuí-la." E por essa declaração, foi preso.
O homem que viveu livre no deserto agora apodrecia entre paredes de pedra.
Os discípulos de João contaram-lhe todas essas coisas. — Lucas 7:18
Notícias chegavam. Jesus estava curando. Expulsando demônios. Ressuscitando mortos.
Mas não estava libertando João.
O Reino estava sendo inaugurado — e o precursor do Reino estava trancado.
Chamando dois deles, enviou-os ao Senhor para perguntarem: "És tu aquele que haveria de vir ou devemos esperar outro?" — Lucas 7:19
A pergunta.
Vinda de João. O mesmo João que disse: "Eu vi e testemunhei que este é o Filho de Deus." O mesmo João que recusou batizá-lo inicialmente: "Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?"
Agora: "És tu aquele ou devemos esperar outro?"
O que aconteceu?
Dúvida. Na escuridão de uma cela, até o maior profeta vacilou.
João esperava um Messias diferente. Tinha pregado fogo: "Ele traz a pá na mão e limpará sua eira, recolhendo o trigo no celeiro; mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga."
Fogo, juízo, separação imediata entre justos e ímpios.
E o que Jesus fazia? Jantava com pecadores. Curava gentios. Falava em parábolas. Nenhum fogo. Nenhum machado cortando árvores. Nenhuma libertação para João.
A prisão faz coisas com a mente.
O isolamento corrói certezas. O silêncio amplifica dúvidas. O tempo arrasta esperanças.
João não era fraco. Enfrentou a elite religiosa. Chamou fariseus de "raça de víboras". Confrontou um rei. Mas agora, sozinho, no escuro, a pergunta veio: "Errei?"
Os discípulos de João chegaram a Jesus.
Naquela mesma hora Jesus curou muitos que tinham doenças, enfermidades e espíritos malignos, e deu vista a muitos cegos. — Lucas 7:21
Jesus não respondeu imediatamente com palavras. Primeiro, demonstrou.
Curou. Ali, diante dos mensageiros de João. Para que vissem com os próprios olhos.
Então respondeu:
"Voltem e anunciem a João o que vocês viram e ouviram: os cegos veem, os aleijados andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e as boas novas são pregadas aos pobres." — Lucas 7:22
Não disse "sim" nem "não".
Apontou para as evidências. E cada evidência era uma profecia de Isaías:
- Cegos veem — Isaías 35:5
- Aleijados andam — Isaías 35:6
- Leprosos purificados — Isaías 53:4
- Surdos ouvem — Isaías 35:5
- Mortos ressuscitam — Isaías 26:19
- Boas novas aos pobres — Isaías 61:1
A resposta de Jesus: "Olhe para Isaías. O que o profeta disse que o Messias faria? Isso está acontecendo."
E então, uma advertência gentil:
"Bem-aventurado aquele que não se escandalizar de mim." — Lucas 7:23
Σκανδαλίζω — skandalízo. Tropeçar. Ser ofendido. Rejeitar por decepção.
Jesus sabia o problema de João. O Messias real não correspondia ao Messias imaginado.
João esperava juízo imediato — recebeu graça prolongada.
João esperava libertação — continuou preso.
João esperava fogo — viu festas com pecadores.
A tentação era rejeitar o Messias por não ser o que se esperava.
"Bem-aventurado" — makários em grego, que significa feliz, abençoado.
Feliz quem não tropeça. Quem aceita o Messias como ele é, não como se imaginou que seria.
A dúvida de João era humana.
Jesus não o repreendeu. Não disse: "Que vergonha, João. Você devia saber melhor." Respondeu com evidências. Tratou a dúvida com paciência.
A fé não é ausência de perguntas. É continuar mesmo quando as respostas não vêm do jeito esperado.
João perguntou: "És tu aquele?"
Jesus respondeu: "Olhe para as obras."
As obras falavam. Os cegos viam. Os mortos viviam. As boas novas chegavam aos pobres.
O Messias estava ali. Só não do jeito que João imaginou.
Aceitar o Deus real é mais difícil do que inventar um deus conveniente.
O Messias veio. Mas não veio do jeito certo. Não libertou João. Não queimou os ímpios. Não estabeleceu o Reino visível imediatamente.
Veio curar. Veio perdoar. Veio morrer.
João precisava confiar — mesmo sem entender.
Conexões
- Isaías 35:5-6 — Profecia sobre cegos, surdos, coxos curados
- Isaías 61:1 — "O Espírito do Senhor está sobre mim... para pregar boas novas aos pobres"
- Malaquias 3:1 — "Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim"
- Marcos 6:17-29 — A prisão e morte de João Batista
- João 1:29-34 — O testemunho de João sobre Jesus
- Hebreus 11:1 — "Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos"