Patrick Nekel
Harmonia Dos Evangelhos

Capítulo V

Fé Além das Fronteiras

Parte IV — Elogio a João

Parte IV: Elogio a João

Mateus 11:7-19

Enquanto os discípulos de João se retiravam, Jesus começou a falar à multidão a respeito de João: "O que vocês foram ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que foram ver? Um homem vestido de roupas finas?"

Lucas 7:24-35

Tendo partido os mensageiros de João, Jesus começou a falar à multidão a respeito de João: "O que vocês foram ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que foram ver? Um homem vestido de roupas finas?"

Os discípulos de João partiram.

Levavam a resposta de Jesus — evidências: cegos vendo, mortos ressuscitando, pobres ouvindo boas novas. A resposta era indireta, mas clara.

Jesus observou-os ir embora. Então virou-se para a multidão.

"O que vocês foram ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento?" — Lucas 7:24

Tem ironia aqui. Os caniços cresciam às margens do Jordão — frágeis, flexíveis, curvam-se a qualquer brisa. Era assim que João era?

Claro que não. João era o oposto de um caniço. Confrontou fariseus. Denunciou Herodes. Não dobrou diante de ninguém.

"O que foram ver? Um homem vestido de roupas finas? Os que vestem roupas finas e vivem no luxo estão nos palácios dos reis." — Lucas 7:25

Outra ironia.

João vestia pelo de camelo e comia gafanhotos. Nada de luxo. Nada de conforto. O homem vivia no deserto por escolha — não por falta de opção.

Os que vestem roupas finas estão em palácios. João estava numa prisão de Herodes — exatamente por não ser como aqueles que vestem roupas finas.

"Então, o que vocês foram ver? Um profeta? Sim, eu lhes digo, e mais do que um profeta." — Lucas 7:26

Mais do que profeta — porque os profetas anunciavam a vinda do Messias de longe. João o viu de perto. Os profetas esperavam, João apontou e disse: "Eis o Cordeiro de Deus."

Ele era o ponto de transição entre as duas eras. O último profeta do Antigo Testamento e o primeiro a ver o Novo começar.

"Este é aquele sobre quem está escrito: 'Enviarei o meu mensageiro à tua frente; ele preparará o teu caminho diante de ti.'" — Lucas 7:27

Citação de Malaquias 3:1. O mensageiro que precede o Senhor.

Malaquias falou de um preparador. Jesus identificou: era João.

E então veio uma declaração absurda:

"Eu lhes digo: Entre os nascidos de mulher, não há ninguém maior do que João; contudo, o menor no Reino de Deus é maior do que ele." — Lucas 7:28

Pensa nisso. Jesus está dizendo que João é maior que Abraão, maior que Moisés, maior que Davi, maior que Elias. Ninguém, em toda a história de Israel, foi maior que esse cara que vive no deserto comendo gafanhotos.

E ainda assim — o menor no Reino é maior que ele. Como isso faz sentido?

A resposta não tem nada a ver com mérito. João era irrepreensível em caráter, corajoso a ponto de confrontar reis, chamado por Deus desde o ventre da mãe. Ninguém superava ele em nada disso.

A diferença era cronológica.

João viveu e morreu antes da cruz. Ele anunciou o Reino, mas não chegou a entrar nele. Morreu na prisão de Herodes antes de ver a ressurreição, antes de Pentecostes, antes do Espírito ser derramado sobre toda carne.

Qualquer crente depois da cruz — por mais fraco, mais ignorante, mais recente na fé — está dentro do que João apenas viu de longe. Não é sobre ser melhor. É sobre estar do outro lado do evento que mudou tudo.

"Todo o povo, e até os publicanos, ouvindo-o, reconheceram o justo caminho de Deus, sendo batizados com o batismo de João. Mas os fariseus e os peritos na lei rejeitaram o propósito de Deus para eles, não sendo batizados por João." — Lucas 7:29-30

E olha quem aceitou João: os publicanos. Cobradores de impostos. A escória da sociedade judaica, considerados traidores por trabalhar pros romanos. Essa gente foi batizada, reconheceu a mensagem, se arrependeu.

E quem rejeitou? Os fariseus. Os especialistas em Bíblia. Os religiosos profissionais. Esses não desceram na água. Não se submeteram.

A ironia é brutal: o "povo de Deus" real não era quem tinha pedigree religioso. Era quem se arrependeu.

Jesus então descreveu sua geração:

"A que posso comparar esta geração? Com que se parecem? São como crianças sentadas na praça e que gritam umas às outras: 'Nós tocamos flauta para vocês, mas vocês não dançaram; cantamos um lamento, mas vocês não choraram.'" — Lucas 7:31-32

Jesus comparou a geração dele a crianças birrentas. Sabe aquelas crianças que reclamam de tudo? "A gente tocou música alegre e vocês não dançaram. A gente tocou música triste e vocês não choraram." Nada satisfaz.

João veio vivendo no deserto, jejuando, austero — disseram: "Esse cara tem demônio."

Jesus veio comendo com as pessoas, participando de festas, bebendo vinho — disseram: "Olha aí, um glutão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores."

Entende? Não importava o método. Qualquer desculpa servia pra rejeitar. O problema nunca foi João ser asceta demais ou Jesus ser festeiro demais. O problema era que eles não queriam ouvir.

"Pois João Batista veio, não comendo pão nem bebendo vinho, e vocês dizem: 'Ele tem demônio.' Veio o Filho do Homem, comendo e bebendo, e vocês dizem: 'Aí está um glutão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores.'" — Lucas 7:33-34

O asceta foi acusado de possessão demoníaca. O que participava de jantares foi acusado de imoralidade. Nenhum dos dois agradava — porque o problema nunca foi o estilo de vida deles. O problema era a dureza de quem olhava.

E a conclusão:

"Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos." — Lucas 7:35

A sabedoria — o plano de Deus — seria vindicada pelos resultados. Pelos frutos. Pelos que responderam.

João e Jesus eram diferentes em método. Mas serviam ao mesmo propósito. E aqueles que entenderam — os "filhos da sabedoria" — reconheceram ambos.

João foi o maior ser humano que já viveu até aquele momento. Jesus disse isso explicitamente. E ainda assim, qualquer pessoa que creu depois da cruz está em posição mais privilegiada — não porque seja mais santa ou mais corajosa, mas porque vive depois do evento que João só conseguiu anunciar.

O Reino veio. A cruz aconteceu. O Espírito foi derramado. O que João viu de longe, nós vivemos por dentro.

Conexões

  • Malaquias 3:1 — "Eis que envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim"
  • Malaquias 4:5 — "Eis que vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do SENHOR"
  • Mateus 17:10-13 — "Elias já veio" — Jesus identifica João como Elias
  • João 3:30 — Declaração de João: "É necessário que ele cresça e que eu diminua"
  • João 7:39 — "O Espírito até esse momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado"
  • Atos 2:17-18 — Pentecostes: "Derramarei o meu Espírito sobre toda carne"