Capítulo V
Fé Além das Fronteiras
Parte V — A Pecadora na Casa de Simão
Parte V: A Pecadora na Casa de Simão
Convidado por um dos fariseus para jantar, Jesus foi à casa dele e reclinou-se à mesa. Ao saber que Jesus estava comendo na casa do fariseu, certa mulher daquela cidade, uma pecadora, trouxe um frasco de alabastro com perfume.
Um fariseu convidou Jesus para jantar.
Simão era seu nome. Fariseu — membro do grupo religioso mais rigoroso. Observante da Lei até os mínimos detalhes. E curioso. Queria ver de perto esse rabi que todos comentavam.
Jesus aceitou.
Não recusava convites. Comia com publicanos. Comia com fariseus. A mesa era um dos seus púlpitos favoritos.
Ao saber que Jesus estava comendo na casa do fariseu, certa mulher daquela cidade, uma pecadora, trouxe um frasco de alabastro com perfume. — Lucas 7:37
Uma mulher entrou.
No primeiro século, jantares formais eram eventos semipúblicos. As casas dos ricos tinham átrios onde pessoas podiam observar. Não era estranho alguém entrar.
Mas esta mulher não deveria estar ali.
Lucas a identifica: "uma pecadora". O termo grego hamartōlós sugere pecado notório, público. Provavelmente prostituição. Todos na cidade sabiam quem ela era.
Colocando-se por trás dele, a seus pés, chorando, começou a molhar-lhe os pés com suas lágrimas. Depois, enxugou-os com seus cabelos, beijou-os e os ungiu com o perfume. — Lucas 7:38
A cena é íntima, quase constrangedora. Ela não disse uma palavra — só chorou.
As lágrimas caíram nos pés de Jesus, suficientes para molhá-los. Ela soltou os cabelos (gesto escandaloso em público) e enxugou os pés com eles. Beijou-os. Derramou o perfume. Tudo em silêncio, tudo em lágrimas.
Simão observava.
Ao ver isso, o fariseu que o havia convidado disse consigo mesmo: "Se este homem fosse profeta, saberia quem nele está tocando e que tipo de mulher ela é: uma pecadora." — Lucas 7:39
Pensamento. Não falou em voz alta. Julgou em silêncio.
O raciocínio era simples: profeta de verdade saberia. E sabendo, não permitiria.
Simão concluiu: Jesus não era profeta. Ou era profeta negligente.
Jesus disse: "Simão, tenho algo a lhe dizer." "Dize, Mestre", respondeu ele. — Lucas 7:40
Jesus ouviu o pensamento.
O fariseu julgou silenciosamente — e Jesus respondeu em voz alta. Já era prova de que sabia mais do que Simão imaginava.
"Dois homens deviam a certo credor. Um lhe devia quinhentos denários e o outro, cinquenta. Nenhum dos dois tinha com que lhe pagar, por isso perdoou a dívida a ambos. Qual deles o amará mais?" — Lucas 7:41-42
Parábola simples. Dois devedores. Um devia dez vezes mais que o outro. Ambos foram perdoados.
Quinhentos denários — quase dois anos de salário de um trabalhador comum.
Cinquenta — cerca de dois meses.
Uma dívida enorme. Uma dívida pequena. Ambas canceladas.
Simão respondeu: "Suponho que aquele a quem foi perdoada a dívida maior."
"Você julgou bem", disse Jesus. — Lucas 7:43
Simão estava certo. A lógica era óbvia.
Quem é perdoado de mais, ama mais.
E então Jesus virou a parábola contra o anfitrião:
"Você está vendo esta mulher? Entrei em sua casa, mas você não me deu água para os pés; ela, porém, molhou os meus pés com suas lágrimas e os enxugou com seus cabelos. Você não me saudou com um beijo, mas esta mulher, desde que entrei, não parou de beijar os meus pés. Você não ungiu a minha cabeça com óleo, mas ela derramou perfume nos meus pés." — Lucas 7:44-46
Olha a diferença:
| Simão | Mulher |
|---|---|
| Não deu água para os pés | Lavou com lágrimas |
| Não deu beijo de saudação | Não parou de beijar os pés |
| Não ungiu a cabeça | Ungiu os pés com perfume caro |
| Convidou, mas não honrou | Invadiu e adorou |
Simão tinha a religião certa. A mulher tinha o amor certo.
"Por isso lhe digo: Os muitos pecados dela lhe foram perdoados; pois ela amou muito. Mas aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama." — Lucas 7:47
A frase é densa.
Não significa que o amor dela causou o perdão. O perdão causou o amor.
Ela amou muito porque foi muito perdoada. A intensidade do amor era prova da grandeza do perdão recebido.
Simão amava pouco — porque se achava pouco devedor.
Quem é mais perdoado?
Não quem pecou mais. Quem reconhece que pecou muito.
Simão pecava também. Mas não se via como pecador. Via-se como credor — melhor que os outros.
A mulher sabia quem era. Sabia a dívida. E quando a dívida foi cancelada, o alívio foi proporcional.
Então Jesus disse a ela: "Seus pecados estão perdoados." — Lucas 7:48
Primeira vez que falou com ela. Primeira palavra direta.
"Estão perdoados." Tempo perfeito. Ação completa. Não "serão" — já estão.
Os outros convidados começaram a pensar: "Quem é este que até perdoa pecados?" — Lucas 7:49
Pergunta certa. Resposta errada.
Eles perceberam que perdoar pecados era prerrogativa de Deus. Mas em vez de concluir que Jesus era Deus, concluíram que estava errado.
Jesus disse à mulher: "Sua fé a salvou; vá em paz." — Lucas 7:50
Foi a fé que salvou ela — não as lágrimas, não o perfume, não os beijos.
A fé foi o canal. As lágrimas foram o fruto. O amor foi a evidência.
"Vá em paz" — eirēnē em grego, a mesma palavra que o hebraico shalom. Significa integridade, completude — não apenas ausência de conflito, mas presença de restauração.
Duas pessoas na mesma sala.
Simão: religioso, correto, distante. Convidou Jesus, mas não o honrou.
Mulher: pecadora, notória, íntima. Invadiu a festa, mas adorou.
Um julgou. Outra amou.
Um se achava pequeno devedor. Outra sabia que devia tudo.
No final, quem foi embora justificado?
O Reino não é para os bons. É para os endividados que reconhecem a dívida.
A graça não é para os que merecem. É para os que sabem que não merecem.
Simão tinha tudo — e saiu vazio.
A mulher não tinha nada — e saiu em paz.
Conexões
- Marcos 14:3-9 — Outra unção (Maria de Betânia, em casa de Simão, o leproso) — eventos distintos
- Lucas 18:9-14 — Parábola do fariseu e do publicano: "Quem se exalta será humilhado"
- Mateus 9:12-13 — "Não são os saudáveis que precisam de médico, mas sim os doentes"
- Romanos 5:20 — "Onde abundou o pecado, superabundou a graça"
- 1 João 4:19 — "Nós amamos porque ele nos amou primeiro"
- Efésios 2:8-9 — "Pela graça sois salvos, por meio da fé — e isto não vem de vós, é dom de Deus"